Ir para a página inicial
Realizar uma busca 🡲

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Sexo, poder e consentimento

    Apesar de o tabu em torno do sexo ser hoje bem menor do que costumava ser anos atrás, não dá para dizer que a situação atual é ideal. Pouco se discute a respeito do assunto de maneira a não banalizá-lo ou mesmo usá-lo como matéria-prima para um humor não muito maduro. Ter aulas de educação sexual nas escolas estaduais é uma conquista muito importante de alguns estados, e que deve ser reconhecida, mas essas aulas são ambientes que não estão isentos dessa tendência (dos alunos, no caso) a banalizar e fazer comédia. E as conversas realmente sérias a respeito do sexo — como a clássica conversa na qual os pais têm um diálogo franco e desconfortável com os filhos —, por outro lado, acabam sendo envoltas numa aura excessivamente sóbria, como se tentasse contornar o tabu fingindo que ele não existisse.
    Precisamos falar sobre sexo. De forma lúcida, leve e consciente. A melhor forma de combater o tabu é tratar o tema da forma mais aberta possível, sem medo da diversidade e sem constrangimento. E, ao mesmo tempo, sem recair no erro de reduzir o sexo — e todo o erotismo que o envolve e que o constitui psicologicamente — ao mero ato carnal. Sexo é muito mais que isso. Em muitos sentidos, o ato carnal sexual é o que menos importa. Abordar as questões sexuais sem a complexidade, riqueza e fascínio que lhe são próprios seria ceder ao tabu e retirar do tema tudo o que o torna particularmente especial à espécie humana — e, mais, aos sujeitos que a compõem singularmente.
    Venho hoje falar sobre uma das coisas que, particularmente, acho mais pertinentes e valiosas que permeiam o erotismo e que, mesmo em aulas de educação se sexual, sequer se menciona: as relações de poder. Embora eu tenha desde já um certo alinhamento psicanalítico, não faço parte do grupo de pessoas (restrito, porém existente) que prega que todas as relações sexuais sejam totalmente baseadas em poder. Seria muita prepotência e ingenuidade fazer uma afirmação desse porte. Mas acho seguro e plausível afirmar que pelo menos a maior parte das relações sexuais (e das dinâmicas psíquicas que as tornam tão prazerosas e viscerais) são perpassadas por questões que envolvam poder, como dominação e submissão. De formas muito distintas, sim, mas sempre com algum cunho de entrega e vulnerabilidade. E embora hoje em dia sejam mais comuns e menos preconceituosas as discussões a respeito das práticas BDSM (que foram inclusive romantizadas por filmes de grande bilheteria, como 50 Tons de Cinza), acaba-se passando a falsa impressão de que essas relações de poder estão circunscritas a certos nichos underground, quando elas na verdade parecem fazer parte (em maior ou menor grau, e de maneiras muito diversas) da própria dinâmica afetivo-sexual humana.
    Constatar a amplitude e a pluralidade dessas dinâmicas de poder no erotismo acaba fazendo com que fique mais fácil nos desprendermos de certos moralismos que normalmente nos faria recriminar ou mesmo julgar certas práticas sexuais que são tidas como "desviantes". E o interessante é que, apesar de as discussões (dentro da academia e até mesmo da militância política) se embasarem em teóricos como Foucault, que desnudaram essas questões de maneiras muito profundas, estes ambientes muitas vezes acabam, sem perceber, recaindo em sua própria forma de moralismo (ideologicamente justificado) para condenar determinadas relações sexuais que envolvam poder, como se elas fossem algo em si prejudicial. Assim, em vez de dissolverem os moralismos que combatem, acabam se tornando moralistas inversos, por assim dizer. Por exemplo: em vez de dizerem às mulheres que elas podem fazer o que quiserem, acabam dizendo o que elas devem não fazer. Querem cercear a liberdade em nome da liberdade.
    Eu até entendo o argumento. Essas relações de poder, expressas na vontade e no desejo sexual dos sujeitos, são construídos culturalmente, e devem ser colocados em questão. Concordo. O problema é: o que se entende por colocar em questão? Sob a minha ótica, é tentar trazer à consciência (tanto histórica quanto individual) essas estruturas sociais nas quais nos inserimos para assim tentarmos, na medida do possível, obter uma clareza maior quanto às nossas próprias escolhas e atrações. Isso é muito diferente de "problematizar por problematizar", de se ancorar num desconstrutivismo estéril, que condena tudo e desumaniza o homem naquilo que o torna um ser desejante. O desejo não se curva à moral (embora até tente, nos neuróticos). Não importa se a moral seja, agora, "progressista". Ele continua reprimido em algum canto, gerando em nós pensamentos e atitudes que não queremos reconhecer como nossos.
    O que se confunde, essencialmente, é não saber exatamente como se delimita o consentimento. Costuma-se achar, muito equivocadamente, que ser submisso numa relação sexual de poder é estar num polo cuja vontade seja anulada. Muito pelo contrário, meus caros. É justamente o polo submisso da relação o detentor do consentimento-último, da decisão de se submeter ou não a determinadas práticas. No sexo — isto é, numa relação erótico-sexual entre duas ou mais pessoas que consentem —, as relações de poder não ofuscam nem anulam a necessidade de consentimento, mas, ao contrário, ampliam a importância de se produzir um ambiente saudável em que haja comunicação. Sexo sem consentimento não é sexo, é estupro. É uma violência extremamente grave, de cunho físico e sobretudo simbólico, que anula a voz do outro sobre seu próprio corpo. É algo inaceitável.
    A questão final parece ser, então, não permitir que as pessoas confundam relações de poder dentro do sexo — que podem, em alguns casos, simular uma submissão da vontade como parte fundamental da própria dinâmica erótica consentida — com um dos crimes mais graves contra a integridade humana. E embora pareça simples fazer esta distinção, em muitos casos a linha pode ser tênue. A pessoa que ocupa o polo submisso, quando se encontra também envolvida emocionalmente nessa posição, pode encontrar muita dificuldade em impor limites e se fazer ouvida. É nisso que as discussões verdadeiramente progressistas devem focar: em conscientizar as pessoas para que criem formas de reforçar a comunicação entre parceiros sexuais, não em demonizar práticas que lhe pareçam ideologicamente controversas. A linha é tênue, mas não deveria ser. Como diria uma caloura minha muito querida, "consentimento não é a ausência de não, mas a presença enfática e consciente de sim".

quarta-feira, 14 de março de 2018

Ser o lado mais leve de si

    Estive tão focado em meus projetos literários que já há algum tempo não escrevo textos especificamente para esse blog. Decidi, então, voltar a estabelecer essa linha de contato; voltar a fazer desse site pessoal um canal de comunicação e de exposição de ideias.
    Amadureci muito no último ano. Muito mais do que eu poderia imaginar que fosse possível, e não estou exagerando quando digo isso. Sinto como se, com tanta autodescoberta, acabei adquirindo certas posturas diante da vida, das pessoas e de mim mesmo — posturas profundamente espontâneas — que hoje me fazem vivê-la de uma forma diferente. Uma certa tranquilidade se apossou de mim de maneira mansa e morna, e, pensando agora, não discordo que isso faça parte de uma maturidade que vem com os anos. Fui um adolescente muito aflito, muito ansioso, e estou só agora aprendendo a relaxar — mesmo em situações estressantes.
    A questão é só que estresse não leva a lugar nenhum. Estresse gera mais estresse, aprofunda o desespero, facilita decisões precipitadas e nos eletrocuta com a nossa própria insegurança. O brasileiro tem essa cultura de valorizar a pessoa preocupada, atribuindo a ela uma certa aura de responsabilidade. Um grande equívoco, se me perguntarem. Responsável é aquele que é capaz de "colocar a cabeça para fora da névoa" (como diria minha querida amiga I.) por um momento e ser capaz de se guiar — de maneira serena, cautelosa e confiante — para fora dos próprios problemas. É ser capaz de ouvir o próprio sintoma em vez de sucumbir a ele. E ter clareza e coragem para entender que está tudo bem, aconteça o que acontecer. Trata-se de saber respeitar os seus próprios limites e as suas próprias dores, sem se deixar imobilizar por eles. Em partes, é sobre ter fé em si mesmo (acreditando nas próprias potencialidades) e em tudo de bom que o futuro reserva, caso o semeemos no agora.
    É claro que eu estaria sendo prepotente e até mesmo insensível se dissesse que essa é uma tarefa fácil. Não é o caso. Não é fácil, meus amigos. Há problemas que nos circundam e que nos esmagam na nossa própria impossibilidade. Mas é certamente possível, e, em certa medida, necessário. Levar a vida da forma mais leve que esteja ao nosso alcance é a única garantia que temos de obter certa paz. Uma paz que se projeta no futuro nunca é paz; é uma esperança ingênua que não se realizará jamais se não nos reeducarmos emocionalmente para encontrar essa serenidade no presente. Problemas, maiores ou menores, sempre existiram e não será agora que deixarão de existir. O que precisa mudar é você mesmo e a sua forma de encarar o mundo.

quarta-feira, 7 de março de 2018

O amor é uma ilusão?

​    Muito se discute a respeito do amor. Uns pintam-no como a salvação última e espiritual da humanidade; outros, como uma balela na qual os românticos nos convenceram a acreditar. Entre essas duas visões extremas, muitas outras perspectivas se aninham. No entanto, pouco se discute com clareza e profundidade. Na gana de expressar e fundamentar suas crenças ou descrenças emocionais no amor, as pessoas não raramente confundem vários subtemas filosóficos que estruturam a questão, tomando-os como se fossem um só e reduzindo a discussão a um ou outro aspecto.
​    Antes de mais nada, é preciso conceituar o amor — o que, por óbvio, não é nada fácil. Não só porque existem muitas formas de amar, mas sobretudo porque a experiência de cada sujeito com o amor é única, irredutível e incomunicável. Como, portanto, podemos falar de algo que é diferente para cada pessoa? Como falar do que permeia as diferenças, do que resiste à tentativa de transmissão, do que sobra no vácuo das palavras? Complicado, para dizer o mínimo. Impraticável, se estamos sendo totalmente sinceros.
​    É por isso que, ao vir aqui me dispor a falar de amor, tenho de inevitavelmente me restringir a falar do que eu acho que seja o amor — nos moldes do que eu vivi e observei. É, portanto, uma visão que não pode se dissociar do seu próprio aspecto pessoal.
​    Há duas posições diametralmente opostas que podem me dar uma base para explicar o que acho que seja o amor. A primeira delas diz que o amor é encontrar um outro alguém que nos faça sentir menos incompletos, mais preenchidos na lacuna do nosso ser. A segunda visão, fundada num ceticismo que, com orgulho, se considera "duramente realista", e que portanto rejeita a primeira, diz que o amor é apenas uma ilusão.
​    Pois bem: concordo com ambas. É importante perceber que elas não se anulam, como a nossa intuição parece querer sugerir. Para mim, o amor realmente está associado â sensação de que a nossa falta está sendo em alguma medida suprida, ainda que parcial e provisoriamente. Todo aquele lance psicanalítico de "desejo de se tornar uno com o outro", de reencontrar a unidade perdida, de tornar a ser o objeto de desejo do outro. E, sim, isso evidentemente é uma ilusão: embora se possa sentir essa falta sendo suprida, ela nunca de fato chega a sê-lo, pois um certo nível incontornável de solidão parece fazer parte da condição humana.
    Em última instância, estamos sozinhos nas nossas questões, no núcleo do nosso ser. Claro: quanto maior e mais verdadeira a conexão com o outro, menos sozinhos nos sentimos, e isso é lindo e importante; mas existe sempre aquele resquício de um eu que é só seu, que não pode ser visto, sentido ou tocado, muitas vezes nem por si mesmo. É nesse abismo entre o eu e o outro que se abre a nossa própria incompletude, e não por coincidência a nossa própria indeterminação de não se saber exatamente quem se é.
​    Porém, eis a questão que muitas pessoas negligenciam: dizer que o amor é uma ilusão não significa necessariamente dizer que ele é uma mentira, mas que ele é da natureza de uma esperança. Amar é ter fé numa promessa de completude; é ter tanta confiança um no outro a ponto de ambos transcenderem o próprio abismo e se comunicarem cada um dentro da sua própria incompletude. E nisso os românticos não poderiam estar mais corretos: esta é uma das coisas mais valiosas que porventura temos a sorte de encontrar na existência.
    Em outras palavras, o que estou dizendo é apenas que a completude que o amor promete não é real, e nunca será — por mais que possa se aproximar de ser —, mas que, nem por isso, o sentimento de amar deixe de ser real e sublime. Quem reduz o amor a processos bioquímicos realmente não entendeu nada sobre o que é o amor, sobre a sua natureza de ilusão que preenche, que faz a vida voltar a ter sabor. Muitas vezes, o amor é a única coisa na qual realmente conseguimos nos agarrar nesse lapso curto e confuso de existência.
​    O que de fato importa é que seja verdadeiro — tanto para quem ama, quanto para quem é amado. Sendo genuíno o sentimento, não há o que se dizer ou duvidar: se você já amou alguém, não precisa pensar duas vezes para saber. E isso jamais deve ser diminuído por reflexão filosófica alguma. O exercício de raciocínio que devemos fazer para investigar de onde e por que o amor vem (partindo das nossas próprias questões pessoais e inconscientes) não deve ser jamais um exercício de desilusão, mas de compreensão. Pois se não entendemos o que nos faz amar, passamos então a ser escravos de tudo aquilo que o amor gera em nós e que nos faz mal. Sentimentos com os quais nos identificamos porque doem, mas que na realidade sequer entendemos por que estão ali. E, claro, sem entender as nossas próprias lacunas, não saberemos trabalhar as incompatibilidades. Pois uma vez que cada pessoa ama de forma especial e singular, nem sempre o sentimento de dois amantes é compatível, ainda que seja verdadeiro. (Na maior parte dos casos, aliás, me parece que a compatibilidade é meramente superficial e provisória.)
    É este o propósito que dou à autorreflexão no que diz respeito ao amor: atingir clareza interna e, por consequência, uma certa paz emocional, um "estar em harmonia com os próprios sentimentos". Jamais um desencantamento afetivo, um ceticismo infértil que nos despe daquilo que mais nos faz humanos e vulneráveis.
​    Amar também faz parte da condição humana, incompleta. Sem a incompletude, não haveria amor, não haveria promessa de completude: o amor é o que nos move, o que nos faz acreditar na conexão emocional. O amor é o instrumento pelo qual acreditamos uns nos outros — e em nós mesmos. É o que nos dá a coragem de nos tornar aquilo que ainda não somos, de acreditar no potencial que nós e aqueles que amamos temos de ser bons e verdadeiros. Passamos a nos sentir preciosos em nossa vulnerabilidade. O amor constrói. Se não constrói, então me desculpem, mas não é amor. É outra coisa.

Este texto pertence ao livro Os vários eus que me habitam, um ensaio filosófico que se encontra em construção há mais de um ano.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Calma Tormenta

SINOPSE {{
Calma Tormenta é um diário de confidências, um convite à minha intimidade psíquica. É uma estátua feita com as pedras que pavimentaram o meu amadurecimento; é o registro íntimo de como cresci e floresci enquanto pessoa no último ano. Foi junto a este livro — e sobretudo através dele — que pude reunir os cacos que os anos fizeram de mim, para me tornar, assim, um pouco mais quem eu sou. Calma Tormenta é sobre redescoberta. É, antes de mais nada, uma exploração das possibilidades da palavra.
}}

A escrita se impõe sobre mim como uma necessidade. É o meu momento de maior liberdade para me ser; para me desdobrar nas minhas potencialidades e exercer a voz que me constitui como sujeito. A escrita é a minha maior ferramenta de autodescoberta e de contato genuíno com o mundo. Ela é a minha ponte para a conexão verdadeira com as outras pessoas, e também o lugar onde aprendi a cavar minha própria solidão.


Comprar um exemplar impresso (R$ 36)*
Fazer o download gratuito em PDF
Fazer o download gratuito em EPUB (para celulares)
*Meu lucro é nulo. Este é o valor que o Clube de Autores cobra para confeccionar o livro.

Textos de Calma Tormenta publicados no blog:
Palácio
Sozinhos, coletivamente
Desconhece a ti mesmo
Lembrete
Rejeição
Contínuo adulto
Meu tom de certeza
Amizades

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Amizades

    Estou percebendo — da forma mais desgastante possível — que ter uma boa convivência social é encontrar a medida certa. E há poucas coisas mais difíceis na vida do que encontrar a medida certa, seja para o que for. No caso das relações com o outro, trata-se de um equilíbrio que oscila entre os extremos da solidão total e da saturação social. Ou seja, a questão é encontrar uma forma de não se isolar emocionalmente da presença do outro (pois em alguma medida isso te isola da própria realidade), mas também de não se deixar consumir pela energia das pessoas.
    Eu me encontro em ambos esses extremos com alguma frequência, e apesar de o extremo da solidão ser bastante devastador — pois me esvazia de propósito, sentido e motivação —, basta que eu passe (como passei ontem e hoje) pelo extremo da saturação social para que eu perceba que a solidão é um alívio. Não convém identificar as pessoas com quem passei tempo e que me desgastaram; apenas que são duas pessoas que admiro intelectualmente, de quem aprendi muito durante minha vida e até hoje posso aprender (embora de forma muito limitada). E é bastante interessante passar um tempo com elas, mas somente se este tempo for curto: o que a experiência me ensinou é que, por um tempo prolongado, ouvi-las falar, falar, falar e falar é uma das coisas que mais me exaure na existência. Não é um desgaste físico, propriamente, mas o desgaste mental e emocional é tamanho que acabo sentindo-o em meu corpo também.
    Não acho por nenhum momento que eu não tenha responsabilidade alguma em sentir isso. Eu sou alguém que me entrego demais à energia das pessoas; a um ponto que, quando estou conversando com gente de personalidade muito forte, é quase como se eu não tivesse minha própria energia. É como se, ao entrar em contato com a chama interna de alguém, a minha chama se mesclasse à da pessoa em questão e perdesse sua própria intensidade independente. Minha chama consegue ser plenamente o que é apenas quando estou sozinho, sobretudo quando estou escrevendo: aí, em vez de mesclar-se à do outro, ela volta a ter seu próprio tom incolor e estável. (É importante lembrar que uso os termos “energia” e “chama” em sentido metafórico, não ontológico.) Acho que isso me ajuda a entender por que muitas vezes não consigo escrever: porque minha chama está muito contaminada com as cores do outro, e aí eu não consigo me ser. E a escrita, como tenho a impressão de já ter dito em pelo menos cinco outros textos, é o próprio ato de se ser — ao menos quando plena.
    Existem outras pessoas, porém, como minha amiga I., cuja energia é tão amena e tão calma, da cor de um profundo azul-safira, que em vez de me saturar, acaba intensificando as cores da minha própria chama: não por coincidência, mas por me dar espaço — e muitas vezes encorajamento — para que eu me seja. Isso é o oposto de todas as outras relações com as quais estou acostumado: durante minha vida toda, me relacionar com pessoas foi uma questão de me adequar ao que a chama delas me impõe. É por isso que a presença de I. me é tão curativa: pois ela me causa algo oposto ao sentimento tão habitual de estar sufocado. E isso vai tão na contramão das minhas relações que, às vezes, quando I. me faz uma pergunta sobre mim, eu não sei o que responder. Minha chama às vezes se revela incolor demais — talvez justamente porque eu esteja viciado em aderir à cor dos outros.
    Estou incomodado porque eu gostaria que a linguagem deste texto tivesse saído leve e poética, mas acabou saindo, pelo menos aos meus olhos excessivamente autocríticos, muito pesado e rebuscado. Então vou tentar ser mais direto e menos explicativo: passe a observar a sua própria energia quando está em contato com as pessoas. Com isso, o meu conselho é que faça o possível para cultivar as amizades que te façam se sentir bem, conectado consigo mesmo, que despertem uma versão boa, leve e confiante de si; e, da mesma forma, procure dar um basta nas amizades que te jogam lá pra baixo, que te saturam, que te façam se sentir culpado por ser quem é. O maior indicativo disso é o medo: se você tem medo de dizer algo e soar ridículo, ou bruto, ou irritante, ou o quer que seja — então esta provavelmente não é uma amizade que te acrescenta.
    Não se trata de instrumentalizar as amizades, e sim de filtrar as relações saudáveis das relações tóxicas. A gente tem, sim, que aprender a lidar com relações nocivas sem fugir delas, enfrentando-as e aprendendo com elas, mas jamais continuar cultivando-as por mera obrigação ou tradição. É só uma questão de se aproximar das pessoas que te fazem se sentir confortável para se ser livremente, sem constrangimentos, até que um dia você possa sentir o mesmo inclusive diante de pessoas que antes te intimidariam.
    As pessoas precisam, sim, ser filtradas. Não tenho dúvida disso. Desconfie de qualquer um que venha com um discurso universalmente bondoso de que você não deve fazer restrições às amizades. Poxa, você está se abrindo a uma pessoa; pode ser muito danoso deixar qualquer um entrar sem qualquer critério. E quanto a “tomar as pessoas sempre como fim em si mesmo”, mando Kant à merda. Amizades são importantes demais para serem indiscriminadas.
    Eu estou absolutamente exausto de dar o meu melhor a pessoas que se veem no direito de presumir que eu tenho a obrigação de considerar seus interesses relevantes, quando, ao mesmo tempo, não têm o menor pudor em demonstrar que os meus interesses lhe são totalmente irrelevantes. Estou farto — e, sinceramente, emputecido — em ter demorado tanto tempo para perceber que aquilo que eu disse, de me censurar por medo de ser julgado, é algo que me mata de dentro para fora, e que eu não posso mais permitir. Eu sei que o “culpado” sou eu por ter permitido que as pessoas tivessem esse poder sobre mim, mas não pude de fato visualizar isto até que encontrasse amigos verdadeiros que me fizessem sentir totalmente confortável por ser quem eu sou. Não se trata de não receber críticas, mas de não ser diminuído por elas. Acho realmente que as amizades têm esse poder, de nos dar — ou tirar — a confiança de sermos quem somos, e de enfrentar o mundo com o queixo em pé.
    (Aliás, obrigado, L., por ser uma das pessoas que mais me iluminou nesse sentido. O seu medo de parecer ridícula diante das pessoas, e a liberdade que eu e você nos damos mutuamente de sermos quem somos, me fez perceber que não devemos abaixar a cabeça a ninguém — muito menos a quem não consegue nos ver de verdade. Você é incrível. Somos incríveis. Vamos lutar todos os dias para que o desinteresse, deboche e julgamento das pessoas não nos impeçam de ver e viver o nosso próprio brilho.)


Este texto pertence ao livro Calma Tormenta.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Talvez você seja narcisista e não saiba disso

    Faz tempo que estou querendo escrever este texto. É muito interessante — e também um pouco frustrante — o fenômeno de formação do senso-comum. Funciona assim: as pessoas observam superficialmente aquilo que elas não entendem, e tomam isso como a totalidade da coisa observada. E uma vez que isso se incorpora à ideia geral que as pessoas têm desta coisa, a tendência é que a visão superficial seja reforçada cada vez mais e mais, até que não se consiga ver nada além da superficialidade. Foi isso que aconteceu com a ideia popular de narcisismo. Explico.
    Quando você pensa em narcisismo, muito provavelmente o que te vêm à mente é uma pessoa que se ame demais. Uma pessoa vaidosa em excesso. Você lembra até do Mito de Narciso, que se apaixonou pelo próprio reflexo no lago. Porém, a impressão de se cultuar é um sintoma do que o narcisismo realmente é. Na realidade, o narcisismo em si é precisamente a falta de autoconfiança. Gravem as próximas palavras, pois elas capturam o núcleo do narcisismo: o narcisista não cultua a si mesmo, mas uma imagem que deseja ter de si próprio. Aliás, para ser ainda mais preciso, a uma imagem que ele precisa ter de si próprio — esta é a sua motivação primária e inconsciente. A questão central é que essa necessidade está associada, quase sempre, à validação externa. Ou seja, o narcisista é aquele que precisa que os outros confirmem uma imagem idealizada que ele precisa ter de si mesmo — e isso pode se demonstrar de inúmeras formas, sendo a vaidade apenas um dos possíveis sintomas. A causa é a insegurança em relação à própria imagem. Sua autoestima é profundamente flutuante e depende da validação social. Todas as suas atitudes têm, em última instância, a finalidade inconsciente de ter uma identidade reconhecida. Essa fragilidade na própria autoimagem faz com que o narcisista esteja sempre na iminência de se sentir agredido, desconsiderado ou deslocado.
    Existem muitos tipos de narcisismos; classificações que, inclusive, variam muito a depender do sistema teórico adotado. Alguns tipos são mais óbvios (como os narcisistas exibicionistas) e outros mais difíceis de ser identificados (como os “narcisistas de armário”, ou narcisistas vulneráveis). Não vou me adentrar aqui nestas classificações, embora eu recomende imensamente que o leitor interessado procure se informar sobre. O que farei aqui é tentar explicar, em linhas gerais, como identificar um narcisista. É extremamente provável que você conviva com muitos deles — e que você mesmo seja um — sem nem ao menos saber.
    A vida do narcisista gira em torno de duas coisas, predominantemente: atenção e validação (reconhecimento). Quanto à primeira delas, é muito fácil identificar um narcisista: ele é sempre a pessoa que monopoliza as conversas. Isso não significa necessariamente falar sempre sobre si; muitas vezes trata-se apenas de receber atenção. Sem querer e sem perceber, o narcisista sempre “toma o controle da conversa”; ele é simplesmente incapaz de participar de uma conversa de mão dupla, pois sua fome de atenção não lhe permite fornecê-la, apenas exigi-la. Ele precisa que as pessoas ouçam com interesse e entusiasmo o que diz, mas não consegue se interessar verdadeiramente por aquilo que ouve — a menos que lhe diga respeito.
    A segunda necessidade é a validação. Ele precisa se sentir no direito de estar falando o que fala, sentindo o que sente, fazendo o que faz — e, para tanto, precisa que as pessoas lhe confirmem que está no direito. É por esse motivo que a noção de senso-comum está tão equivocada: pois o narcisismo é o cúmulo da insuficiência; é o mais rigoroso “precisar da opinião do outro”. As formas de se validar também são várias, mas a maioria delas é permeada por um discurso de “vejam como eu sou injustiçado”. O narcisista, sem perceber, é obcecado em se colocar como vítima das situações. Esse ponto é particularmente relevante, pois quando diz respeito às suas questões, o narcisista é profundamente dramático; porém, quando se trata das dores das demais pessoas, ele as desconsidera sem nem pestanejar. É por isso que muitos psicólogos chegam a teorizar o narcisismo afirmam que seu autocentramento excessivo resulta em incapacidade (relativa ou absoluta) de ter empatia verdadeira.
    Na prática, acaba sendo difícil identificar o narcisismo — não só nas pessoas que nos rodeiam, mas sobretudo em nós mesmos — porque ele pode ser bastante sutil. Uma pessoa viciada em contar “causos”, por exemplo, não seria normalmente vista como narcisista, mas é altamente provável que seja: isso não apenas a permite monopolizar a conversa, como também a coloca quase sempre como protagonista das histórias. O narcisista quer sempre ser o protagonista — mesmo quando está se humilhando em vez de se exaltar. E existem milhares de outras formas de um narcisista se validar: pode ser, por exemplo, por associação a ideais ou figuras idealizadas; assim, constroem sua imagem à luz da imagem de ideias ou pessoas já reconhecidas. Outra forma de se validar é através do humor — especialmente do humor que toma como alvo a imagem das outras pessoas.
    É de extrema importância pontuar que não estou falando do Transtorno de Personalidade Narcisista, o diagnóstico psiquiátrico. Quando falo "o narcisista", estou apenas utilizando uma forma simplificada de me referir a uma pessoa cujos sintomas (no sentido psicanalítico) girem em torno de questões narcísicas. Não estou, como pode parecer, criando uma categoria psicopatológica taxativa. Falo em "o narcisista" para me referir conceitualmente a um tipo de padrão metapsicológico — isto é, a um padrão que não diz respeito ao conteúdo das questões psicológicas, mas sim ao seu funcionamento, que nesses casos é altamente narcísico. É claro que qualquer pessoa pode eventualmente apresentar alguns traços pequenos de narcisismo; isso não faz dela narcisista. Quando falo em narcisistas, estou me referindo às pessoas que — em maior ou menor grau — subordinam inconscientemente todas as suas interações sociais (e inclusive metas pessoais e profissionais) a seu narcisismo.
    A essa altura, é muito importante alertar para a comum tendência de demonizar o narcisismo como algo intrinsecamente ruim e, mais, moralmente reprovável. Isso não faz sentido pois, em primeiro lugar, o narcisismo é fruto de uma história pessoal conturbada, cheia de angústias — normalmente num contexto familiar rodeado de outros narcisistas — que a pessoa sequer escolhe, e cujo impacto a pessoa sequer se dá conta. (Alguns pesquisadores chegam a sugerir até influências genéticas.) Reprovar o narcisismo moralmente acaba sendo muito contraprodutivo, pois faz do assunto um tabu na medida em que impõe ao narcisista um certo vexame diante de seu próprio sintoma.
    O narcisismo deve ser denunciado e combatido apenas na medida em que se torna tóxico. Isso acontece quando a magnitude do narcisismo se torna socialmente problemática, ou seja, inviabiliza as relações sociais e impede a pessoa de estabelecer vínculos verdadeiros — o que, devo dizer, não é nada incomum. Pelo que pesquisei e observei, uma pessoa que tenha altas doses de questões narcísicas quase sempre sofre e gera problemas dos mais diversos tipos, todos eles girando em torno de seus próprios apegos narcísicos. O que quero dizer com apegos narcísicos? Bem, para início de conversa, o narcisista quer sempre estar certo. A culpa é sempre das outras pessoas. Fica muito abalado com discussões, como se sua vida dependesse disso. O narcisista reage muito mal a críticas, pois as toma como ameaças. Outro apego narcísico muito nítido é a necessidade de estar no controle, sempre "saindo por cima" das situações de alguma forma.
    Se é possível mudar? Não tenho uma resposta. Porém, sendo eu mesmo um narcisista vulnerável (em grau médio, eu diria), posso dizer que, embora talvez não seja possível se desfazer totalmente das motivações narcisistas (pois em última instância são elas que nos movem), é plenamente possível melhorar. Como? Obtendo consciência delas, procurando prestar real atenção nas pessoas e procurando formas de canalizar o narcisismo para coisas boas. É claro que isso não é tão simples: é o próprio narcisista que deve se atentar para suas características potencialmente tóxicas, e procurar mudá-las. Se uma pessoa “de fora” tentar apontar seu narcisismo, seus mecanismos de defesa entrarão em ação; afinal, a exposição é um dos maiores medos do narcisista. Por isso, é preciso tomar cuidado: apontar o narcisismo em alguém narcisista pode fazer essa pessoa se voltar contra você. E não podemos nos esquecer: ao apontar, olhe para si mesmo, pois não há nada mais narcisista que apontar (de maneira rancorosa ou zombeteira) o narcisismo de outra pessoa. Ele só pode ser trabalhado se houver uma boa dose de humildade e autopercepção.

*Credito a maior parte do meu conhecimento à Elinor Greenberg, psicóloga americana e autora de "Borderline, Narcissistic, and Schizoid Adaptations: The Pursuit of Love, Admiration, and Safety". Ela é uma famosa expert em canais de informação como o Psychology Today e o Quora.

domingo, 29 de outubro de 2017

Meu tom de certeza

    Tenho um apego por estar certo. Se estou sendo sincero, devo dizer que isto é algo extremamente evidente que, no entanto, só fui capaz de enxergar após muita autoanálise e muita humildade, como remédios amargos que insisti em tomar por saber que fazem bem. Mas não é algo do tipo “o importante é vencer a discussão”, pois, lembremos, eu me pauto pelo outro, o que significa que para mim é absolutamente impraticável um cenário no qual eu me imponha sobre o meu interlocutor de forma a ser visto como um vilão. É muito mais algo no sentido de “mostrar de maneira didática e simpática ao outro os motivos pelos quais eu acho que tenho razão”.
    O problema é que esses motivos são sempre muito bem fundamentados e articulados — ainda que estejam equivocados ou enviesados, algo inteiramente possível. Tanto é que, quando apresentam algum argumento ou lógica mais contundentes que as minhas, eu não hesito nem por um segundo em ceder, com um ar resignado ou curioso (mas sempre de bom grado), admitindo que a outra pessoa tem razão.
    Ultimamente tenho estado um tanto machucado por ouvir de amigos íntimos, na palavra dos quais eu coloco completa integridade, que eu sou intelectualmente autoritário. Porque eu cedo.
    Eu cedo. Seria profundamente injusto dizer, só por causa do tom seguro e enfático das minhas palavras, que eu não cedo. Se tem uma coisa que eu faço, é ceder — não só quando reconheço que estou errado, o que é muito frequente, mas mesmo em situações em que continuo convencido das minhas razões, mas conformado diante do fato de que a outra pessoa não está disposta a entendê-las antes de contra-argumentá-las.
    Mas eu entendo que esse tom possa inspirar uma arrogância, passando a impressão de que eu parto do pressuposto de que eu estou antecipadamente certo — uma postura que me incomoda e me ofende profundamente quando me deparo com ela em alguma pessoa. Já cheguei a concluir precipitadamente que esta é uma projeção minha, que eu só abomino esse tipo de pessoa porque na realidade é algo que eu tenho em mim e não aceito. E, para dizer bem a verdade, quando penso nesta hipótese projetiva, eu a sinto doer lá no fundo, o que me faz acreditar emocionalmente que ela é verdadeira. Mas, parando para pensar racionalmente, uma grande parte da minha concordância de que eu sou assim é, sem querer, uma forma de eu ceder às pessoas que me dizem isso, validando a sua visão sobre mim e internalizando-a em forma de culpa.
    Não sei se o leitor conseguiu captar o traquejo que estou tentando mostrar que acontece: ao admitir essa culpa para mim, me culpando por algo que racionalmente eu sei que não faz tanto sentido assim, estou fazendo justamente aquilo que me acusam de não ser capaz de fazer: reconhecer a verdade do outro. O que é isso, minha gente? Reconhecer a verdade do outro é tudo o que eu sempre fiz na vida.     É a raiz de toda a minha ansiedade social, de todo o meu sentimento de insuficiência. É um desaforo que verdadeiramente me dói ouvir do outro,que eu sou "intransigente": pois se eu de fato o fosse, isso sequer me doeria.
    O que me vem à cabeça agora é que talvez eu seja, de fato, essa pessoa que me acusam ser, e que na realidade eu só estou me enganando com racionalizações. Esse autoquestionamento permanente, que resiste mesmo apesar de eu ter me convencido racionalmente de que eu não sou essa pessoa que me pintam ser, existe no mais profundo de mim: eu considero tanto a palavra do outro que eu não consigo me descontaminar dela, mesmo após eu tê-la batalhado dentro de mim. O outro sempre causou um estrago em mim; e é por isso que consigo entender que me machuque tanto essa crítica, pois é o outro dizendo que o meu defeito é não ouvi-lo.
    É, aliás, talvez justamente porque atribuo à palavra do outro uma autoridade tão grande que eu tenho esta necessidade de me demonstrar certo — o que é totalmente diferente de ter a necessidade de estar certo, previamente, porque eu não tenho problema nenhum em estar errado, contanto que me convençam articuladamente. O que me ofende nessas pessoas que querem sempre estar certas não é que eu me veja nelas, mas, ao contrário, é me ver diante de um outro que quer impor suas verdades sobre mim mas não está minimamente disposto a ter, como eu tenho, uma permeabilidade às ideias do interlocutor. E me desculpem, amigos, mas se vocês me conhecem minimamente, sabem que eu sou a permeabilidade em pessoa. Eu sou inteiro permeável à subjetividade alheia, e, novamente, esse tem sido o meu maior problema há muito tempo.
    Então, não: eu não aceito que me taxem como autoritário apenas porque meu tom de voz pode soar seguro demais. Porque muito mais autoritários são vocês, com tons passivos e inseguros, e que não se permitem convencer nem mesmo por argumentos muito bem explicados que contrariem as suas crenças confortáveis.
    Não vou dizer que não tenho vieses, que minhas opiniões são sempre desapaixonadas a ponto de não haver resistência alguma a ideias novas, mas eu certamente não sou esse monstro que as suas próprias inseguranças fizeram de mim. Se bem que não os culpo. Também eu sou inseguro e projeto meus próprios demônios nas pessoas. Crio monstros onde não há e os combato a ferro e fogo, odiando aquilo que me machuca. É triste e patético, e quem mais se machuca ao fazer isso somos nós mesmos. Os meus monstros hoje são dois, sobretudo. O nome dela é L., e o dele, R.
    L. é uma menina linda. Num certo sentido, não há meio termo: sua presença causa atração ou repulsão nas pessoas que a cercam. De si exala uma aura de adulta, não só com seus traços maduros mas também com sua expressão, que é toda cheia de um ar de exausta, sem paciência para as pessoas e muito menos para si mesma. Acho que isso dá grande parte do charme (pois o que ela mais tem é charme): essa constante postura de quem está tão cansada da vida que já parou de fazer questão. O ponto é que, olhando-a mais atentamente, num nível um pouco mais profundo do que as pessoas costumam procurar, é muito nítido que essa pose toda é provavelmente uma roupa que ela aprendeu a vestir para não se deixar fragilizar. Essa é a sua forma de não se vulnerabilizar.
    Mas chega uma hora que cansa — e eu diria que cansa imediatamente, assim que se percebe qual é a dela. Quando se percebe que essa indiferença toda, esse sarcasmo pretensamente humilde e esse ar desdenhoso em relação às coisas da vida, às pessoas e a si mesma — quando se percebe que tudo isso não passa de uma fachada, uma defesa que ela está viciada em usar, e sem a qual não consegue se relacionar, a pessoa se cansa. E aí aquela elegância toda, aquele brilho que ainda seduz muitas pessoas, se transforma de repente em algo triste. Uma pessoa que não consegue se demonstrar vulnerável em público, e que, em vez disso, veste uma máscara de quem incondicionalmente sabe o que fala — mesmo quando, na maior parte dos momentos, esteja falando coisas das quais não tem a menor propriedade. Sua situação passa de triste, então, para um tanto nociva.
    Acho que, sob um certo ângulo, a forma de L. lidar com as discordâncias é quase oposta à minha. Como conversar com alguém que possui o tempo todo um tom de voz desapegado e cético (no sentido da desesperança, do pessimismo como pressuposto), e que, no entanto, jamais cede? Pois justamente por sentir que não domina o assunto, veste uma carcaça de quem domina, e se deixa embrenhar nessa apresentação confusa de segurança e insegurança excessivas na voz.
    Quanto ao R., minha repulsa é ainda maior. Pois a sua gana por estar certo não é triste, mas irritante — no máximo que alguém consegue ser. A questão é que ele, ao contrário de L., domina até excessivamente o que está falando, e tem argumentos bastante lógicos e articulados. O que me irrita e me ofende profundamente é que a sua vontade de se demonstrar correto é tão sedenta e tão voraz que ela me atropela. R. também não cede, mas porque usa da solidez de seus argumentos para não precisar escutar o que o outro tem a dizer. Se escuta, parece ser sempre com o objetivo primordial de desmontar o argumento do outro de uma maneira complexa e intelectual, ou, no mínimo, compatibilizá-lo ao seu.
    Eu, que só o conhecia virtualmente, era um grande fã. Até que tentei conversar com ele pessoalmente, ouvindo suas opiniões complexas e dialogando com elas — foi então que percebi que seus olhos divagavam e sua mente fugia do ambiente quando era o momento de tentar assimilar os meus argumentos. E naquele momento eu me senti profundamente invisível, como se o único papel possível que eu poderia ter para ele era o de ceder à erudição e exatidão de seus argumentos, sem intervir com a minha própria subjetividade.
    E o interessante é que, pelo que conversei com outras pessoas que o conhecem, embora ele tenha uma reputação um tanto manchada por ser uma pessoa que problematiza demais as coisas, e com uma dedicação combativa intensa demais, chegando a parecer talvez até um pouco rancorosa, poucos são aqueles que se incomodam e que sequer notam esta sua tendência a não ouvir. E eu consigo entender o porquê. A forma didática como se comunica passa a impressão — não por coincidência — de que ele está ouvindo seu interlocutor, quando na realidade tudo o que faz é utilizar o discurso que chega até ele como uma ponte para a construção do seu próprio. Ele não está minimamente disposto a ceder.
    O único lado bom deste incômodo que R. me causa tão ferozmente é ter me feito descobrir que me é extremamente doloroso ser contrariado por pessoas que não estão abertas ao que eu tenho a dizer. Eu me sinto invalidado. Mais do que isso, até: anulado. Porque, repetindo pela trigésima vez, eu infelizmente aprendi a me ver por meio dos olhos do outro. E isso é algo que eu tenho trabalhado muito em análise.
    Ainda preciso descobrir até que ponto esta minha aversão a essas duas pessoas é fruto das minhas inseguranças e projeções, e até que ponto eles de fato têm posturas tão tóxicas quanto me parecem ter. O fato de eu estar usando apenas suas iniciais me alivia bastante, pois me deixa totalmente confortável para não me censurar em nome da privacidade psicológica alheia. O que me deixa entusiasmado é imaginar se o leitor que é amigo deles será capaz de identificá-los mesmo sem eu ter escrito seus nomes, o que significaria não apenas uma precisão descritiva minha, mas também uma certa acurácia em sua toxidade. Ou, melhor ainda, se eles próprios estiverem lendo isso, e diante da identificação com o descrito, serem obrigados a se deparar com o fato de que "a carapuça serviu".


Este texto pertence ao livro Calma Tormenta.