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domingo, 19 de março de 2017

Cogumelo de Adão

SINOPSE {{
Como seria se um personagem pudesse falar com seu autor, descobrindo que sua própria existência é apenas parte de uma história? Com a ajuda de alguns cogumelos duvidosos, Adão começa a conversar com seu criador. É obrigado, então, a questionar as verdades mais fundamentais de sua vida. Se antes não sabia se a voz sobrenatural era real, passa a não saber se ele próprio o é. Naquela relação imaginativa, quem é criador e quem é criatura?

Enquanto passa por um momento conturbado de redescoberta de sua própria identidade, Adão tenta achar seu lugar entre as pessoas — e entre si mesmo. Cada pessoa com quem o rapaz se depara enfrenta também suas próprias lutas internas, suas dores e hipocrisias inerentes à espécie humana. Há o  Meia, seu colega de apartamento, que possui uma obsessão religiosa e uma homofobia internalizada; Lorenzo e Julinho, que têm pais que escolhem diariamente ser ausentes na vida dos filhos para dar a eles uma vida financeira confortável; Teresa, que no meio de sua ternura teve uma recaída em sua depressão; e Horácio, que mais parece um animal arisco, após tanto ser hostilizado pelas pessoas ao seu redor.

Adão consegue um emprego e lá descobre a selvageria do mercado profissional. Sente sobre as suas costas o peso da vida adulta e do amadurecimento, que se faz às custas das ilusões confortáveis que sustentavam sua realidade. No entremeio de situações estressantes, descobre suas próprias incoerências internas e com elas aprende, como quem toma um remédio amargo e necessário.
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A história trata da sociedade enquanto coletividade mecanizada, da hipocrisia humana, das drogas (seus tabus & seus riscos reais), das crises de relacionamento moderno e sobretudo da metaescrita (a escrita sobre a escrita). Ocorre que, fascinado pela magia e pelo poder da ficção, Adão dá início à escrita de seu próprio livro, preparando Laura para a revelação de que ela é uma personagem de um personagem. Em Cogumelo de Adão, as vulnerabilidades de cada um se mostram um poço de sutilezas e complexidades profundas.






*Meu lucro é nulo. Este é o valor que o Clube de Autores cobra para confeccionar o livro.

sábado, 4 de março de 2017

Você

Tu me perguntas quem sou eu
Eis que te digo:
Sou o não dito
O não vivido
Sou o inferno.

Sou a tua companhia
Tua sanidade
Teu tormento, teu pesadelo eterno.

Sou o outro
Sou o que chamas de “você”
Sou todos, sou ninguém.

Sou teus demônios
Sou a tua fuga
Sou o juiz, sou os olhos da sociedade.

Sou tu, sou espelho
Sou símbolo, sou invenção
Sou quem confirma o que tu chamas de real.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Por que abandonei o Direito

    Quem não é do meu convívio íntimo pode ter ficado surpreso quando comemorei minha aprovação em Psicologia. Pois é, amigos. Eu, que por tantos anos sonhei em cursar Direito, e por um ano e meio mantive a imagem de alguém que estava mais que satisfeito com a própria escolha profissional, descobri que estava enganando a mim mesmo. Verdade seja dita, nunca estive confortável dentro da Faculdade de Direito; sempre me senti um peixe fora d'água, embora eu procurasse ao máximo mascarar esse incômodo existencial, deixando que o desinteresse e o desânimo mórbidos me consumissem sem que eu entendesse o que isso significava. O ano de 2016 talvez tenha sido o que caíra mais pesado sobre meu colo, com duas grandes crises pessoais — uma referente ao passado, outra ao futuro — que me obrigaram a amadurecer para além do que eu imaginava que fosse possível; mas foi justamente graças a estas crises que pude visualizar minha vida com clareza e juntar a coragem exigida por decisões drásticas e necessárias.
    Por óbvio, este texto não é um ataque ao Direito, seja enquanto curso, seja enquanto instituição, muito embora eu tenha severas ressalvas quanto a ambos. Antes, é muito mais um relato, um desabafo, sobre desilusão pessoal. O maior erro que cometi, e que, ao que me parece, é cometido pela quase-totalidade dos estudantes de Direito, foi não saber distinguir entre o que o curso representa e o que ele de fato é. Ao prestar vestibular, minha escolha não estava propriamente fundamentada no desejo de exercer as profissões jurídicas, e sim no apreço pela imagem social de um estudante de Direito. Com efeito, foi esta a imagem à qual me apeguei, dizendo para mim mesmo, ainda que de maneira profundamente implícita, que estudar Direito significava possuir uma identidade de quem argumenta e se inconforma, de quem não admite injustiças; imagem esta que é vista pela sociedade com bons olhos. Entretanto, apesar de isso se confirmar em algum grau (o que também é altamente questionável, embora não seja esse o mérito da questão), o que o Direito realmente é diz muito mais respeito à atividade intelectual e profissional das ciências jurídicas.
    Em outros termos, é de extrema importância jamais confundir a imagem do Direito com o seu conteúdo prático. Ao tentar convencer a mim mesmo que valia a pena continuar no curso somente e tão somente por ter me apaixonado ao que ele representa, enquanto não possuo qualquer afinidade a tudo o que esteja diretamente ligado à sua essência efetiva, eu me assemelhava a um médico, por exemplo, que se mantém na profissão apenas por gostar de usar jaleco e ter uma clínica, embora deteste lidar com o corpo humano e atender pacientes. Os que desejam ser minimamente realizados em sua profissão não podem se apegar a símbolos vazios e ignorar vigorosamente o que ela significa em termos reais. Isso seria não apenas viver uma ilusão, mas também estar fadado à minha própria incompetência, fruto inevitável desta total inaptidão para satisfazer de forma decente a atividade profissional jurídica.
    E por que, afinal, tenho tamanha aversão ao que o Direito de fato é? É muito simples: ele parte de uma lógica sistêmica que se mostra absolutamente incompatível com o tipo de atividade intelectual que desperta em mim interesse e habilidade. A racionalidade do Direito é inexoravelmente uma racionalidade técnica. Ainda que seja possível estudá-lo a partir de perspectivas propedêuticas, e não apenas dogmáticas, o cerne do raciocínio se volta sempre, em última instância, para questões técnicas; não são raras as vezes em que juristas gastam longas e prolixas quinhentas páginas para discutir minuciosidades terminológicas que, apesar de terem sim importantes consequências práticas, não conseguem segurar a minha atenção por mais que dois minutos. E apesar de haver exceções pontuais, como em disciplinas mais amplas como História do Direito, mesmo estas são incapazes de gerar em mim o mais parco entusiasmo. Isso me leva a concluir que não só a racionalidade do Direito me é insípida, como também o é sua temática imediata: a norma. Como poderia eu, então, dedicar minha vida ao Direito se tanto o modo de fazê-lo quanto sua matéria-prima me causa, na mais generosa das hipóteses, uma profunda apatia?
    É claro que existem muitas outras disfunções graves no Direito, mas nenhuma delas foi realmente decisiva para o meu abandono, embora tenham certamente pesado na decisão. Exemplo disso é a negligência gritante com a retórica, uma das características que mais me atraiu para o curso e que, no entanto, parece ser tratada como um instrumento absolutamente secundário (quando muito) para o qual se dá pouca ou quase nenhuma atenção. Os argumentos de autoridade são muito mais revelantes e frequentes, até onde pude observar. Admito que esses problemas, assim como muitos outros, não são exclusividade do Direito, mas tive a nítida impressão de estarem particularmente reforçados e naturalizados nas instituições jurídicas. Não deixa de ser preocupante, uma vez que a prioridade dos juristas e operadores do direito aparenta estar, muito mais que na Justiça ou em qualquer outro valor primordial, na batalha de egos e em rivalidades imaturas entre "clãs".
    De todo modo, já antecipando os interrogatórios familiares de fim de ano, me vejo na necessidade e na possibilidade de esclarecer algumas questões que sequer deveriam ser levantadas. Em primeiro lugar, apesar de a carreira jurídica oferecer caminhos financeiramente mais confortáveis, isso não significa que seja impossível prosperar em outras áreas profissionais, sobretudo se você por elas se interessa e se qualifica. E mesmo se este delírio de senso comum fosse verídico, e de fato só fosse possível ser bem sucedido seguindo as três grandes carreiras (Direito, Medicina e Engenharia Civil), eu francamente não estaria disposto a sacrificar quarenta anos de minha vida — ou até mais, dadas as temerosas alterações na Previdência Social — em profunda infelicidade profissional apenas por dinheiro. Não estou sendo hipócrita e dizendo que dinheiro não é importante, e sim que o dinheiro, por si só, não pauta a minha vida; vejo ele como meio, não como fim. A mim, tão importante quanto ser remunerado de forma justa é desempenhar uma atividade que me cative e para a qual eu possa verdadeiramente contribuir. Isso não significa dizer que todos devem seguir o mesmo, e sim que ninguém, absolutamente ninguém, pode impor sua própria lógica de vida a mim ou a qualquer outro alguém.
    Não sou ingênuo de acreditar que construir uma carreira na Psicologia será um mar de rosas, ou mesmo que não encontrarei frustrações e obstáculos. Contudo, estou totalmente seguro que me encontrarei neste tipo de atividade, sendo o estudo da psique humana uma verdadeira paixão desde a infância, e ainda mais agora no início da vida adulta. Mas isso já é assunto para outro texto.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O infinito textual

    Ao fim de um capítulo, digitei, letra por letra:
Conseguira a tempestade que desejava provocar. Após ela, no entanto, não houve arco-íris algum. Houve um abismo. Houve um mar de ondas, glaciais por fora, magmáticas por dentro, rebentando-se em si mesmas.
    Mandei a um amigo, que também escreve e se maravilha com as possibilidades da escrita, para que ele me ajudasse a reposicionar uma vírgula, pois estava parecendo-me um tanto dissonante. O trecho exposto acima é o definitivo, já corrigido, pois o que convém aqui não é a vírgula bastarda, mas o que se seguiu depois: encarei bem aquelas palavras e cogitei a possibilidade de elas serem inéditas. Ora, que descoberta óbvia e, ainda assim, fascinante que pude fazer em meio segundo de reflexão: mesmo a língua portuguesa, rica e farta como é, com palavras que são comuns e talvez até triviais aos seus bilhões de falantes ao longo da história, e tão cotidianamente explorável como qualquer outro idioma vivo, é — vejam vocês — em grande parte inexplorada. Mesmo com seus incessantes encadeamentos de letras, fonemas, sílabas, palavras, períodos e orações, respectivamente; mesmo com um fluxo tão grande de associações que se dão a todo instante, por séculos, em exaustiva repetição; mesmo apesar disto tudo, ainda possui incontáveis possibilidades nunca antes testadas. Uma verdadeira Biblioteca de Babel à nossa espera, aguardando, latente, para ser escrita.
    Os matemáticos mais assíduos certamente irão atentar à minha ingenuidade, dizendo que mesmo as mais improváveis combinações de palavras já foram antes tentadas, e lhes dou razão; entretanto, as possibilidades são tão grandes, tão avassaladoras, tão inimagináveis, que mesmo estas repetições inusitadas não são páreas para a imensidão inexplorada. É como se julgássemos ter desmatado toda uma floresta e eu descobrisse, de supetão, que diariamente abro novos caminhos nesta selva virgem e inexaurível que é a linguagem. Ainda que muitos tenham aberto seus próprios caminhos nesta infinitude simbólica, digo com certa dose de certeza que fui o primeiro a abrir aquele exato caminho da citação acima trazida, e com uma dose ainda maior e mais segura de certeza de que este próprio texto, que pelo leitor é lido, é mais um caminho único, nunca antes explorado.
    Pergunto-me, não pela primeira vez (embora só agora eu tenha efetivamente ligado os pontos e resolvido me manifestar ao mundo, à eternidade das ideias cristalizadas chamada escrita), se o mesmo não ocorre com muitas ideias. Porque, vejam: mesmo sendo praticamente nulas as chances de alguém ter, algum dia, escrito um texto exatamente idêntico a este em termos de forma, não é tão improvável que já tenham escrito algo de conteúdo semelhante. Mas e se existirem pensamentos (ou, se quiser, conteúdos) tão específicos, tão particulares de cada experiência humana e momento histórico, que nunca foram antes pensados, e provavelmente nunca serão novamente formulados em termos equivalentes? Serão estas ideias únicas apagadas pelas falsas aparências da insignificância? Pela infeliz verdade do desinteresse alheio por nossos próprios mundos internos, detalhistas e profusos?
    Realmente me entristece imaginar o mar de caminhos desperdiçados pelo esquecimento, pelo "talvez algum dia eu conte a alguém", pelo "pensando bem, ninguém iria se importar". Rogo para que, caso encontrem caminhos esquisitos e inabitados nesta loucura chamada pensar, que se aventurem também pela relva da linguagem — por mais piegas que soem estes meus votos, por mais unânime que pareça (e, de fato, seja) a repulsa e a apatia dos medíocres frente ao que lhes é estranho, e por mais fúteis que vossas próprias peculiaridades vos aparentem ser.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

O futuro, a tecnologia e o inconcebível

    Nas rodas de conversa entre amigos, sempre me entusiasmo imensamente com o futuro — e não posso deixar de sentir uma certa frustração ao constatar que este entusiasmo é pouco partilhado por eles. Sinto que, no geral, as pessoas não costumam realmente pensar sobre o que está por vir em termos tecnológicos; se o fazem, é quase sempre com uma animação morna, quase desinteressada, quando não sob uma perspectiva pessimista e temerosa. Não digo que não há o que temer, pois nem mesmo o mais ingênuo dos otimismos poderia desqualificar as críticas mais que válidas feitas por séries grandiosas, como Black Mirror, por exemplo; digo apenas o evidente: o futuro tecnológico não nos reserva apenas desgraças. Apesar de a tecnologia ter, eventualmente, finalidades sombrias, a tendência mais inevitável é a de que ela sirva, em maior parte, aos interesses imediatos da humanidade, em termos de acesso, comunicação, transporte ou o que seja — e se isso significa transfigurar as relações humanas, esta é uma questão posterior que não apaga as significativas benesses da vida moderna.
    O que mais me cativa é olhar para a história e perceber, por meio dela, como nossa visão sobre o futuro é terrivelmente limitada. Chega a ser fascinante pensar que, há trinta anos, sequer fazíamos ideia do que viria a surgir, como o que chamamos hoje de internet. Não só era algo imprevisível, como literalmente inacreditável: se voltássemos no tempo e contássemos às pessoas que seria possível a basicamente qualquer um comunicar-se com alguém do outro lado do mundo instantaneamente, não apenas por texto, mas por voz e imagem, isto seria com toda certeza mais fantasioso que falar sobre carros voadores. Apesar de estes últimos estarem muito além da capacidade técnica da época (como continua estando até hoje, eu diria), é algo absolutamente concebível, pois não quebra paradigmas; a internet, por outro lado, supera um obstáculo até então incontornável: a distância. Foi só achando outras formas de transmitir uma mensagem — que não pelo envio convencional, adstrito às rigorosas limitações da física mecânica tradicional — que criamos um novo paradigma; e se enxergamos hoje a internet como algo banal, tão maior se mostra o poder desta revolução tecnológica.
    Embora o desenrolar destas novas tecnologias seja monumental, o que é ilustrado quase ironicamente por infantos que sabem lidar com tablets mas não com revistas, o ponto nevrálgico do que quero aqui passar não é este, e sim o próprio fato de que todos os limites que nossa imaginação encontra hoje estão sujeitos a superações que fogem ao nosso paradigma atual. Talvez esta constatação seja um tanto óbvia a quem já está familiarizado com o debate científico, mas insisto em sua importância: é fundamental que jamais descartemos possibilidades de inovações tecnológicas só por parecerem ousadas ou inviáveis demais.
    Dentre as previsões que ouso fazer, estão as que lidam diretamente com a exploração e a materialização de nossas subjetividades. Gosto de pensar que, daqui a não muito tempo, será praticamente impensável que não éramos antes capazes de projetar nossa própria imaginação na realidade. Um passo nesta direção já foi dado: os óculos de realidade virtual, que hoje ainda engatinham, com um tímido espaço no mercado, decerto são uma poderosa promessa para o entretenimento futurista: em pouco tempo, dificilmente haverá jogos e filmes que não sejam totalmente tridimensionais. Arrisco que, aos olhos do amanhã, um filme 2D será equivalente ao que os filmes em preto e branco nos é hoje. Este tipo de atividade imaginativa é quase um exercício antropológico de estranhamento.
    O futuro nos reserva, sim, o sobre-humano. Muitas das nossas limitações mais intransponíveis serão contornadas por paradigmas que, por enquanto, fogem à nossa compreensão. Só nos resta sorrir, imaginar e, por último, esperar.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O artista à sombra do anonimato

    Escrever exige postura. Parte da aura mágica da leitura tem como ingrediente a imagem que o leitor possui do autor, e embora seja possível e até desejável que esta imagem se molde à luz do texto, parece-me que é muito mais frequente o contrário. É evidente que a arte jamais é dissociada de sujeitos, mas é profundamente preocupante perceber que por vezes estes são até mais importantes que suas criações em si — um quadro branco com um respingo de tinta só vale milhões se tiver sido produzido pela pessoa certa. E que fazer dos que não têm renome? Dos que se devotam com sinceridade às suas artes mais íntimas, e sobre os quais jamais pousam os holofotes do reconhecimento porque a humanidade não parece estar interessada em dar fama aos ignorados, aos de passado e futuro relegados ao desconhecimento?
    Não que dinheiro realmente avalie alguma coisa, ou tampouco a atenção massiva das multidões sedadas, porém, se por um lado esta liberdade anônima liberta, ela também nos acorrenta à nossa própria solidão. É por gritarem e não serem ouvidos que muitos desistem de gritar, ou mesmo passam a desacreditar nas próprias denúncias. Entristece-me ver a ode cega a clássicos de outras épocas, exaltações absolutas a obras e gostos importados, enquanto ignoramos as súplicas existenciais de nossos próprios vizinhos, que clamam, sentem e retratam nossa própria realidade. O que me incomoda não é que haja clássicos, mas que eles detenham uma exclusividade asfixiante que nos aliena de nosso próprio mundo. Estou farto de neve, de romances mediterrâneos, de conflitos medievais. Quero ver a nós mesmos, plenos em nossa história e cotidiano; e sei que estamos ali, em algum lugar! Em produções artísticas domésticas, viscerais e sublimes que se escondem debaixo de nossos olhos, invisibilizados pela desatenção mórbida.
    Quantos artistas grandiosos não morrem na surdina, longe da atenção pública? Quantos Machados e quantas Clarices não enterramos sem ao menos saber? Trata-se não apenas de representatividade, mas sobretudo de oportunidade; de dar voz aos vencidos, a quem vive o aqui e agora. Eu quero encontrar os Dostoiévskis tupiniquins e escutar o que eles têm a dizer. E você?

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Como ter sonhos lúcidos

    Você certamente já deve ter ouvido falar dos sonhos lúcidos; porém, apesar de serem amplamente difundidos, é comum que haja uma certa confusão quanto ao que os define exatamente, ou mesmo quanto aos métodos para atingi-los. Venho, então, compartilhar minha experiência e dar minha singela contribuição à disseminação deste glitch da mente humana, que, na mais tímida das hipóteses, é um grande passo em direção ao autoconhecimento.
    Embora existam outros elementos que possam caracterizar os sonhos lúcidos, como a habilidade de controlar a realidade onírica a seu bel prazer, estas são decorrências posteriores que podem ou não estar presentes, e que, por si só, não definem nada. Um sonho só é lúcido, como o próprio nome já sugere, quando você, dentro dele, sabe que está sonhando. A quase-totalidade das técnicas que me permitiram ter sonhos lúcidos com frequência diz respeito a, justamente, identificar que se está num sonho. A partir daí, é só uma questão de testar as possibilidades de seu próprio universo interno.
    Como sei que estou sonhando? Bem, após alguns anos de varreduras em fóruns da internet, descobri e testei muitas formas; todas elas se baseiam em falhas de realidade, já que a "física dos sonhos" possui alguns defeitos que parecem se aplicar a praticamente todas as pessoas. Trago aqui as principais:

    1. Mãos
    Este é o mais útil e mais confiável sintoma onírico. Nos sonhos, suas mãos jamais são idênticas às da realidade. Suas características variam de sonho para sonho, sendo uma mais bizarra que a outra. Comigo, é muito comum que eu tenha mais de sete dedos em cada mão, ou apenas três; por vezes, os dedos são desproporcionalmente finos e longos; e, num sonho muito específico, cada dedo apresentava outras cinco ramificações, como uma mão elevada ao quadrado.

    2. Espelhos
    Se algum dia você se olhar no espelho e ver-se a si próprio deformado, como uma anomalia monstruosa que só com alguma dificuldade lembra um ser humano, não se assuste: você está sonhando! Dentro dos sonhos, os reflexos dificilmente conseguem reproduzir a realidade com sucesso.

    3. Relógios
    Sejam analógicos ou digitais, os relógios nos sonhos são totalmente malucos. Assim como as mãos, seus ponteiros ou números apresentam características muito voláteis e imprevisíveis, podendo rodopiar, contorcer, piscar, desaparecer ou mesmo indicar horas absolutamente improváveis.

    4. Céu
    Este é um indicativo um pouco controverso, pois parece funcionar com uma quantia um pouco menor de pessoas. No entanto, eu próprio já olhei para o céu dentro dos meus sonhos e me surpreendi ao ver auroras boreais de todas as cores, fumaças inusitadas, e, certa vez, até mesmo pisca-piscas de Natal.

    A recomendação oficial da maior parte dos estudiosos da onirologia é a de que, para garantir sonhos lúcidos frequentes, é preciso antes fortalecer a memória temporária dos sonhos, uma vez que eles tendem a dissolver-se em poucos minutos após acordarmos. Isso explica por que boa parte das pessoas acha que não sonha — na verdade sonha, mas não tem memória alguma. A dica, então, é anotar num caderninho de cabeceira, logo que acordar, o que você sonhou. Não é estritamente necessário: eu mesmo nunca o fiz, tanto por achar inviável, quanto por não precisar; mas definitivamente ajuda.
    Quanto aos indicativos, é claro que só conhecê-los não basta; é preciso checá-los com uma certa regularidade. Existem muitos tutorais por aí que ensinam a criar um impulso automático de olhar para as próprias mãos várias vezes por dia, mas não sou muito afeito a este tipo de condicionamento forçado e artificial. A dica que eu dou, e que funciona para mim, é checar as próprias mãos sempre que algo estranho na realidade acontecer (porque os sonhos costumam ser bem ilógicos, ainda que de modo sutil), de forma que, eventualmente, a própria curiosidade de saber se você realmente está acordado te motivará a realizar o reality check.
    No entanto, é particularmente importante a parte em que eu disse que é preciso "testar as possibilidades", pois nem tudo é possível. Tomar consciência de que se está sonhando, apesar de ser o mais importante passo, nem sempre é suficiente; leva certo tempo até que se aprenda a controlar o sonho. Voar, por exemplo, talvez seja a primeira coisa que todos tentem fazer ao se darem conta do poder que têm em mãos, mas é algo um tanto difícil; eu mesmo nunca consegui, pelo menos não sem cair e acordar. A já mencionada "física dos sonhos" funciona de uma forma deveras misteriosa. Existem técnicas para esse tipo de coisa, mas são muito mais pessoais do que universais. Um ótimo conselho que li uma vez, e que me surpreendeu ao funcionar, é o que me ensinou a fazer pessoas aparecerem. Apenas imaginá-las não basta — mesmo porque, na realidade, ninguém simplesmente surge, de repente. Neste caso, o que funciona é imaginar que elas estejam atrás de uma alguma porta que esteja à vista e então abri-la: a expectativa costuma se concretizar, e lá está a pessoa. Ou não; por vezes, percebemos como nossa mente é travessa e foge ao nosso próprio controle.
    Para todos os efeitos, a experiência de ter um sonho lúcido é fascinante. Digo sem medo que todo ser humano* deveria ser capaz de explorar seus sonhos; de certo modo, não deixa de ser um simulador natural da própria realidade que vivemos, com um potencial enorme para testar novas ideias, enfrentar nossos maiores medos e observar a força e a sutileza do nosso próprio inconsciente. Mês passado, por exemplo, decidi, dentro do sonho lúcido, analisar de perto os detalhes dos objetos, para ver se os "gráficos" da minha mente eram tão bons quanto os da realidade. Olhando uma maçaneta a poucos centímetros de distância, fiquei assustado com o quão detalhada ela era, como se tivesse sido esculpida em alta definição pela minha imaginação involuntária. E, já no embalo de compartilhar experiências oníricas, foi engraçada certa vez em que, conversando com minhas amigas, e tendo uma consciência súbita de que eu estava sonhando, retruquei com elas quando disseram que iam dormir: "Não vão não. O sonho é meu e vocês são meras NPCs, frutos da minha imaginação. Não vão me deixar falando sozinho." Elas aceitaram.
    E para os que, como eu, têm sono leve, também existem formas de tentar prender-se ao sonho quando sentir aquela familiar sensação de estar acordando. Costumo usar duas técnicas, e, por mais ridículas que possam parecer, garanto que funcionam. A primeira é esfregar as próprias mãos; já a segunda, dar voltas em torno de si mesmo. Isso costuma concentrar a atenção no âmbito interno do sonho, não deixando que barulhos da realidade externa te arranquem de lá. Ah, e aqui vai outra dica importante! Evite lugares escuros. Pelo menos até onde pude constatar, são áreas não geradas pela mente; cair neste vácuo muito provavelmente vai te fazer acordar.
    Torço muito para que, com isso tudo, eu consiga ajudar os leitores a também terem essa experiência maravilhosa. Mesmo que pareça (e, de fato, seja) difícil no começo, reforço que é completamente possível eventualmente ter mais e mais sonhos lúcidos, não só por meio do acaso, mas também e sobretudo por reiteradas tentativas. Sou a prova viva disso: após cerca de dois anos de prática, consigo ter de três a oito sonhos lúcidos por mês. Mentalizar, antes de dormir, a si mesmo acordando dentro dos sonhos, por exemplo, costuma ajudar consideravelmente. Da próxima vez que for se deitar, lembre-se: uma viagem para dentro de si mesmo pode estar te esperando, com possibilidades lindas e inesgotáveis. Aliás, como sabe que não está sonhando neste exato momento?

*Após postar o texto, fui informado por alguns amigos que os sonhos lúcidos podem ser particularmente aterrorizantes para quem possui Síndrome do Pânico, bem como para quem tem propensão a ter Paralisia do Sono.
Ficam aí importantes advertências.