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sexta-feira, 16 de junho de 2017

Desconhece a ti mesmo

    Dei tantas voltas em torno de mim mesmo que me vejo agora embrenhado no mais tragicômico dos paradoxos. Eu, que sempre fui ótimo com as palavras, que fui sempre o primeiro a ter algo a dizer sobre o quer que seja, e da maneira mais translúcida que eu podia, de repente me descobri incapaz de comunicar o que trago por dentro.
    Eu não sei. Acho que, em última instância, antecipo que as pessoas não serão capazes de me compreender; não por ter em mim questões de complexidade sobre-humana, mas pelo fato de estar fora de alcance dos outros conhecer e sentir as minhas verdades mais básicas, minhas verdades internas e esmiuçadas que dão liga ao que chamo de real. É como tentar explicar uma equação de segundo grau — que nem eu mesmo entenda muito bem — a alguém que não conhece as operações matemáticas mais simples. As minhas operações só eu conheço, e tentar responder a certos porquês é como tentar explicar axiomas. Por que dois mais dois é igual a quatro?
    Durante vinte anos, falei com a gana de ser compreendido. Agora, passei a me calar para não ser incompreendido. Eis o paradoxo. Pois ainda que eu possa, com as palavras, pintar quadros que retratem a minha realidade interna, com as mais fieis cores, a pintura tem sempre, e inevitavelmente, apenas duas dimensões. Falta uma dimensão interior que cada um encontra ou não dentro de si, a depender do quanto meus textos tocam o leitor em seu íntimo; e essa dimensão é necessariamente diferente da minha. Pois a minha dimensão interna é inacessível, e, em minha solitude absoluta, não é raro que eu me perca totalmente em mim; que eu me veja afogado por minhas próprias tormentas.
    Talvez eu sinta que esteja me faltando pessoas dispostas a ceder um pouco de sua profundidade para me compreender verdadeiramente, para me dar ouvidos atenciosos. Mas o fato é que não me falta; tenho alguns poucos amigos, este ano ainda mais, que sempre me surpreendem com sua sensibilidade à vida e a mim. O que acontece é que, mesmo com elas, não me sinto completamente confortável para falar sobre as minhas verdades. Por causa de todo o resto, de toda a parcela massiva e gigante de pessoas embrutecidas e desinteressadas, sinto ter perdido a esperança; sinto ser hoje incapaz de acreditar verdadeiramente que alguém se interessaria pelo que tenho a dizer sem uma dose pequena de cinismo, sem um leve fingimento para me agradar.
    As pessoas querem só falar, e eu não as culpo: descobri que eu também quero só falar. Quero — como sempre quis — saciar essa sede de mostrar ao mundo as flores que colho em meus jardins internos, para que elas não apodreçam. Mas como se resolve este impasse, em que continuo querendo falar, sem no entanto ter esperança de que conseguirei genuinamente? Porque mesmo com as poucas pessoas que estão dispostas a me ouvir de coração aberto não consigo, eu mesmo, me abrir. Parece falso. Toda tentativa de trazer para superfície o que tenho em meu núcleo é como tentar explicar as cores a uma pessoa cega.
    Por vezes, as descrições que dou casualmente a amigos quando me perguntam como estou emocionalmente até se aproximam um pouco da realidade, mas é algo tão simplificado e tão incompleto que soa artificial. Com os outros, eu me sinto inteiro artificial. É como se eu estivesse sempre representando um papel feito de partes de mim, e eu não aguento mais.
    Eu não aguento mais.
    É como se eu já não soubesse mais me ser. Porque se eu tiro todas as máscaras, não vejo rosto algum. Se tiro de mim o filho obediente, o amigo observador, o falador espirituoso... Se tiro o people-pleaser que gosta de todos e é por todos gostado, o que sobra?
Sobra o meu silêncio. Sobra dor, sobram emoções que me consumiriam vivo, se eu permitisse. Ou sobra gelo, a alternativa a elas, que no entanto não é muito diferente de estar morto.
    Se antes eu me desesperava para ser compreendido, percebo agora que era porque no fundo sempre senti a incompreensão iminente. Não apenas lutava contra ela com todas as minhas forças, como a própria luta era de onde eu retirava minha energia vital. E agora? O que tenho? O que faço, tendo perdido as esperanças?
    É claro que a escrita me servirá de refúgio, como sempre me serviu; mas não consigo pedir a amigos que leiam meus escritos sem me sentir patético. Porque suplicar por atenção foi o que eu sempre fiz, e continuar fazendo-o mesmo após ter perdido as esperanças faz com que eu precise vestir novamente as máscaras, fingindo que me sinta compreensível. Emocionalmente — isto é, no mais profundo de mim, fora do alcance da razão —, não consigo acreditar que alguém possa realmente ter interesse sincero e autêntico em percorrer as minhas entranhas, pois ninguém há de me entender tão bem como eu. E se nem eu me entendo, que fazer?
    Talvez isto mude. É minha única luz no fim do túnel, na verdade: que isso mude, como as tantas outras crises temporárias, porém decisivas da vida. Pois me sinto drenado do que antes me movia; do que antes dava sentido à minha relação com as pessoas. E eu não gostaria de depender das plateias para poder viver. Existe escapatória? Entre viver uma vida artificial, para as pessoas, e uma vida solitária, no próprio silêncio de si?

Este texto pertence ao livro Calma Tormenta, que se encontra atualmente em construção.

sábado, 10 de junho de 2017

Sozinhos, coletivamente

    A minha história com a solidão é muito estranha; absurda, quase; e, se pararmos para pensar, talvez mágica, até. É que durante a minha vida toda eu a evitei ao máximo. Ter crescido com acesso à internet me possibilitou nunca estar sozinho, e muito da minha desenvoltura social se deu graças a jogos de MMORPG (Massively multiplayer online role-playing game), isto é, mundos virtuais recheados de intensa interação entre jogadores reais. Se por um lado isso fez com que eu aprendesse a me dar muito bem com pessoas, tanto individualmente quanto em bandos — sobretudo para desviar do bullying, muito presente em meu ensino fundamental inteiro —, também criou em mim uma dependência muito grande.
    Foi então que, no início de meu florescimento intrapessoal, isto é, na época em que iniciei um processo doloroso de autopercepção e amadurecimento, no ano de 2016, notei esta dependência. Caminhando para o Restaurante Universitário, incomodado e até ofendido por nenhum de meus amigos ter aceitado ir jantar comigo, perguntei-me — como um soco em meu próprio estômago — por que diabos a minha própria presença, isolada, me era tão insuficiente. Por que instintivamente eu suplicava por companhia, por alguém para me tirar do tédio monstruoso que era ter apenas a mim mesmo? Esse desconforto abriu meus olhos para muitas outras coisas incrustradas em minha personalidade, para forças inconscientes que motivavam minhas ações de uma maneira constante e talvez até um pouco desesperada. Comecei a entender, por exemplo, por que eu era tão people-pleasing, isto é, por que tinha a necessidade compulsiva de agradar a todos, a todo instante — porque, tendo me pautado a vida toda pela subjetividade alheia, eu precisava que as pessoas me validassem, pois sua aprovação era a única coisa capaz de me tornar real. Por isso digo, no texto Cólera (um de meus textos mais sinceros e viscerais até hoje, diga-se de passagem), que o outro era a minha medida; pois era pelos outros que eu me pautava. Sozinho, não havia outro; sozinho, eu não era nada. Esta minha sensibilidade elevada à percepção do outro deixou de ser um dom e me fez carrasco de mim mesmo.
    Se com o tempo me livrei dos meus demônios, apenas por ser agora capaz de visualizá-los? De forma alguma. Mas aprendi a adestrá-los. Vez ou outra eles escapam da jaula e fazem a festa, alimentando minhas inseguranças e catalisando minha ansiedade social; porém, tenho aprendido a questionar sua força e esvaziá-los de poder. Foi assim que fui progressivamente tomando um caminho em direção a mim mesmo, ao ponto de meus amigos estranharem. “Régis, você está bem? Não, não é nada; é só que você está quieto demais.” No começo me incomodava que presumissem que o meu silêncio fosse sinal de tristeza, mas depois passei a achar um tanto fofo, embora levemente obtuso; significa que se preocupam comigo, e que notam quando estou com o grupo, e quando estou comigo mesmo. E se o contraste entre meus comportamentos é tão evidente, é justamente porque a vida toda nunca estive comigo mesmo; sempre estive tagarelando, tentando chamar atenção, citando fatos interessantes aqui e acolá, vivendo até onde me permitiam viver, com seus olhares (des)atentos.
    E quanto a estar com o grupo ou estar comigo mesmo, há pouco tempo pude saborear um paradoxo delicioso exatamente nesse sentido. Vocês não acreditariam na frequência com que estou num grupo de pessoas e me sinto profundamente deslocado — tanto por não partilhar do interesse pelo assunto discutido, quanto por ter plena ciência de que as demais pessoas também não se interessariam pela reflexões aleatórias que dançam em minha mente. Nesses momentos, enquanto observo vagamente as pessoas interagirem entre si, sem no entanto prestar muita atenção e ter atenção alguma voltada sobre mim, me sinto profundamente conectado comigo mesmo, da maneira mais confortável e genuína possível. Esse é o paradoxo ao qual me referi: ser justamente no seio das coletividades os momentos em que mais me aproximo de mim mesmo. Contudo, pensando bem, não é paradoxo algum; pelo contrário, faz muito sentido, já que é exatamente nas coletividades que surge sua antítese, o isolamento.
    Esse é apenas um dos inúmeros indícios de que não há nada mais ambíguo que a vida em sociedade. Não é à toa que muitas pessoas, a maioria delas, eu diria, vivem solitárias mesmo estando sempre rodeadas. Pois o medo da solidão impõe máscaras, e essas máscaras sociais abrem um abismo entre quem verdadeiramente somos e quem aparentamos ser. É, assim, justamente o medo da solidão que nos condena à maior das solidões: o isolamento dos outros e de si próprio.
    Foi só perdendo o medo de me sentir deslocado que pude finalmente aproveitar minha própria companhia e, assim, estar disposto a disfrutar da companhia alheia, nos momentos certos.

Este texto pertence ao livro Calma Tormenta, que se encontra atualmente em construção.

sábado, 3 de junho de 2017

Palácio

    O palácio que sou eu, e nas paredes do qual estou confinado, embora seja externamente delimitável, visível a olho nu, tem em suas entranhas uma infinitude que cresce â medida que é explorada.
    Por fora, a divisão entre mim e o mundo possui precisão atômica; as paredes de meu palácio são biologicamente exatas, e entre o que chamo de “eu” e o que chamo de “outro” existe um abismo incontornável.
    Por dentro, guardo em mim um universo repleto de supernovas, de estrelas surgindo a partir do caos que me habita. Esta anti-matéria que constitui meu âmago subjetivo não comporta expectadores diretos, de forma que reste a mim duas opções apenas: ou digiro meu próprio caos, que é muito mais sublime e complexo do que às vezes posso suportar, e transmito a outros seres sua versão mastigada, reduzida e deformada, ou deixo-o trancafiado nos cantos mais obscuros de mim, vivendo, assim, na superfície.
    Tenho percebido que a vida toda escolhi a segunda alternativa, sempre de maneira passiva e irrefletida. Vivi na superfície para não me excluir da companhia daqueles que me cercam, para obter deles a validação intersubjetiva. Podei minha própria profundidade e complexidade em nome do direito de ser real, em nome do medo de uma existência sozinha e incompreendida.
    Já a primeira opção, a de mergulhar em minhas próprias questões e delas expelir algo novo, sublimado, é o que chamo de arte. Mas fazer arte não é tarefa leviana. Porque fazer arte de suas próprias entranhas, arte sincera e visceral, exige coragem. Exige uma coragem que tem me faltado nos últimos meses, em que tenho me alienado de mim mesmo e cedido à insegurança. Deixei que o sentimento de insuficiência, com vestes de preguiça e desinteresse, me tirasse a minha maior liberdade, que é a escrita. Pois cada vez que eu me afundava nos recônditos que me preenchem, eu me via inundado por uma complexidade maior que eu; uma complexidade que nunca exerci publicamente, que sempre deixei enterrada e adormecida, por não me oferecer reconhecimento, por me impossibilitar companhia. A cada tentativa de digerir meu caos, eu me via esmigalhado pela insuficiência, pelo fracasso antecipado que sequer me permitiria tentar o sucesso. Futuros que nem ao menos tiveram a chance de virar presente. E, incapaz de me recompor, de exercer as minhas potencialidades, eu me deixei ser imobilizado pela inércia cada vez mais, tornando-me refém de minha própria covardia. Impotência retroativa que se alimenta do turbilhão que agita as minhas galáxias internas, e que a todo instante me sequestra do agora.
    Por isso escrever me exige coragem: pois uma escrita de peito e alma não se constrange diante da expectativa de rejeição, não se censura pelas vaias de uma plateia silenciosa e incerta. Escrever é percorrer o meu íntimo e colocá-lo em palavras para o mundo, sem qualquer medo ou pudor, sem a preocupação asfixiante de ser incompreendido. Pois será justamente o receio de não ser habilidoso o suficiente para organizar e expor com beleza e completude o meu palácio o responsável por fazer com que eu próprio acabe me trancando para fora, junto a quem habita meus jardins externos.
    A única maneira de tocar verdadeiramente aqueles que me visitam, que têm em si seus próprios castelos e suas próprias masmorras, é abraçando sem medo as minhas supernovas e trazendo um pouco delas à luz, na escrita. “Canta a tua aldeia e serás universal.” A veracidade desta afirmação é minha única esperança de ter visitas: pois só não estarei sozinho dentro de meu próprio palácio se as pessoas, ao me ouvirem e ao me lerem, puderem, com isso, percorrer o interior de suas próprias paredes. A empatia é muito mais que um mero dever moral: é a única hipótese de não-solidão; de habitar o mundo em conjunto, de descobrir a parte de você que habita no outro. Só por meio da empatia se pode compreender o outro verdadeiramente, sem reduzi-lo à imagem rasa que se faz dele. Um mundo sem empatia é um mundo de pessoas que convivem solitárias, cada uma delas presa à sua própria bolha, cega e incomunicável.
    A comunicação profunda e verdadeira é a única forma de romper com a solidão da existência humana. Mas não se adentra outros palácios sem antes conhecer o seu próprio a fundo, sem saber qual é a ponte que liga o seu mundo aos dos outros. E aventurar-se por sua infinitude interior é algo que se pode fazer apenas sozinho, pois só você tem acesso à escuridão estocada dentro de si. Soa deliciosamente paradoxal: para romper com a solidão, é preciso antes fazer dela sua amiga; e, assim, desbravar a si mesmo sem medo do peso das próprias verdades, que, mesmo sem querer, você esconde tão bem de si mesmo. E então, se ainda assim quem estiver em seu jardim não for capaz de vislumbrar o que está dentro das janelas, de compreender o que e quem é você, aí ao menos você tentou — e tem a si mesmo para continuar explorando o próprio mistério que chama de eu.

Este texto pertence ao livro Calma Tormenta, que se encontra atualmente em construção.

domingo, 19 de março de 2017

Cogumelo de Adão

SINOPSE {{
Como seria se um personagem pudesse falar com seu autor, descobrindo que sua própria existência é apenas parte de uma história? Com a ajuda de alguns cogumelos duvidosos, Adão começa a conversar com seu criador. É obrigado, então, a questionar as verdades mais fundamentais de sua vida. Se antes não sabia se a voz sobrenatural era real, passa a não saber se ele próprio o é. Naquela relação imaginativa, quem é criador e quem é criatura?

Enquanto passa por um momento conturbado de redescoberta de sua própria identidade, Adão tenta achar seu lugar entre as pessoas — e entre si mesmo. Cada pessoa com quem o rapaz se depara enfrenta também suas próprias lutas internas, suas dores e hipocrisias inerentes à espécie humana. Há o  Meia, seu colega de apartamento, que possui uma obsessão religiosa e uma homofobia internalizada; Lorenzo e Julinho, que têm pais que escolhem diariamente ser ausentes na vida dos filhos para dar a eles uma vida financeira confortável; Teresa, que no meio de sua ternura teve uma recaída em sua depressão; e Horácio, que mais parece um animal arisco, após tanto ser hostilizado pelas pessoas ao seu redor.

Adão consegue um emprego e lá descobre a selvageria do mercado profissional. Sente sobre as suas costas o peso da vida adulta e do amadurecimento, que se faz às custas das ilusões confortáveis que sustentavam sua realidade. No entremeio de situações estressantes, descobre suas próprias incoerências internas e com elas aprende, como quem toma um remédio amargo e necessário.
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A história trata da sociedade enquanto coletividade mecanizada, da hipocrisia humana, das drogas (seus tabus & seus riscos reais), das crises de relacionamento moderno e sobretudo da metaescrita (a escrita sobre a escrita). Ocorre que, fascinado pela magia e pelo poder da ficção, Adão dá início à escrita de seu próprio livro, preparando Laura para a revelação de que ela é uma personagem de um personagem. Em Cogumelo de Adão, as vulnerabilidades de cada um se mostram um poço de sutilezas e complexidades profundas.






*Meu lucro é nulo. Este é o valor que o Clube de Autores cobra para confeccionar o livro.

sábado, 4 de março de 2017

Você

Tu me perguntas quem sou eu
Eis que te digo:
Sou o não dito
O não vivido
Sou o inferno.

Sou a tua companhia
Tua sanidade
Teu tormento, teu pesadelo eterno.

Sou o outro
Sou o que chamas de “você”
Sou todos, sou ninguém.

Sou teus demônios
Sou a tua fuga
Sou o juiz, sou os olhos da sociedade.

Sou tu, sou espelho
Sou símbolo, sou invenção
Sou quem confirma o que tu chamas de real.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Por que abandonei o Direito

    Quem não é do meu convívio íntimo pode ter ficado surpreso quando comemorei minha aprovação em Psicologia. Pois é, amigos. Eu, que por tantos anos sonhei em cursar Direito, e por um ano e meio mantive a imagem de alguém que estava mais que satisfeito com a própria escolha profissional, descobri que estava enganando a mim mesmo. Verdade seja dita, nunca estive confortável dentro da Faculdade de Direito; sempre me senti um peixe fora d'água, embora eu procurasse ao máximo mascarar esse incômodo existencial, deixando que o desinteresse e o desânimo mórbidos me consumissem sem que eu entendesse o que isso significava. O ano de 2016 talvez tenha sido o que caíra mais pesado sobre meu colo, com duas grandes crises pessoais — uma referente ao passado, outra ao futuro — que me obrigaram a amadurecer para além do que eu imaginava que fosse possível; mas foi justamente graças a estas crises que pude visualizar minha vida com clareza e juntar a coragem exigida por decisões drásticas e necessárias.
    Por óbvio, este texto não é um ataque ao Direito, seja enquanto curso, seja enquanto instituição, muito embora eu tenha severas ressalvas quanto a ambos. Antes, é muito mais um relato, um desabafo, sobre desilusão pessoal. O maior erro que cometi, e que, ao que me parece, é cometido pela quase-totalidade dos estudantes de Direito, foi não saber distinguir entre o que o curso representa e o que ele de fato é. Ao prestar vestibular, minha escolha não estava propriamente fundamentada no desejo de exercer as profissões jurídicas, e sim no apreço pela imagem social de um estudante de Direito. Com efeito, foi esta a imagem à qual me apeguei, dizendo para mim mesmo, ainda que de maneira profundamente implícita, que estudar Direito significava possuir uma identidade de quem argumenta e se inconforma, de quem não admite injustiças; imagem esta que é vista pela sociedade com bons olhos. Entretanto, apesar de isso se confirmar em algum grau (o que também é altamente questionável, embora não seja esse o mérito da questão), o que o Direito realmente é diz muito mais respeito à atividade intelectual e profissional das ciências jurídicas.
    Em outros termos, é de extrema importância jamais confundir a imagem do Direito com o seu conteúdo prático. Ao tentar convencer a mim mesmo que valia a pena continuar no curso somente e tão somente por ter me apaixonado ao que ele representa, enquanto não possuo qualquer afinidade a tudo o que esteja diretamente ligado à sua essência efetiva, eu me assemelhava a um médico, por exemplo, que se mantém na profissão apenas por gostar de usar jaleco e ter uma clínica, embora deteste lidar com o corpo humano e atender pacientes. Os que desejam ser minimamente realizados em sua profissão não podem se apegar a símbolos vazios e ignorar vigorosamente o que ela significa em termos reais. Isso seria não apenas viver uma ilusão, mas também estar fadado à minha própria incompetência, fruto inevitável desta total inaptidão para satisfazer de forma decente a atividade profissional jurídica.
    E por que, afinal, tenho tamanha aversão ao que o Direito de fato é? É muito simples: ele parte de uma lógica sistêmica que se mostra absolutamente incompatível com o tipo de atividade intelectual que desperta em mim interesse e habilidade. A racionalidade do Direito é inexoravelmente uma racionalidade técnica. Ainda que seja possível estudá-lo a partir de perspectivas propedêuticas, e não apenas dogmáticas, o cerne do raciocínio se volta sempre, em última instância, para questões técnicas; não são raras as vezes em que juristas gastam longas e prolixas quinhentas páginas para discutir minuciosidades terminológicas que, apesar de terem sim importantes consequências práticas, não conseguem segurar a minha atenção por mais que dois minutos. E apesar de haver exceções pontuais, como em disciplinas mais amplas como História do Direito, mesmo estas são incapazes de gerar em mim o mais parco entusiasmo. Isso me leva a concluir que não só a racionalidade do Direito me é insípida, como também o é sua temática imediata: a norma. Como poderia eu, então, dedicar minha vida ao Direito se tanto o modo de fazê-lo quanto sua matéria-prima me causa, na mais generosa das hipóteses, uma profunda apatia?
    É claro que existem muitas outras disfunções graves no Direito, mas nenhuma delas foi realmente decisiva para o meu abandono, embora tenham certamente pesado na decisão. Exemplo disso é a negligência gritante com a retórica, uma das características que mais me atraiu para o curso e que, no entanto, parece ser tratada como um instrumento absolutamente secundário (quando muito) para o qual se dá pouca ou quase nenhuma atenção. Os argumentos de autoridade são muito mais revelantes e frequentes, até onde pude observar. Admito que esses problemas, assim como muitos outros, não são exclusividade do Direito, mas tive a nítida impressão de estarem particularmente reforçados e naturalizados nas instituições jurídicas. Não deixa de ser preocupante, uma vez que a prioridade dos juristas e operadores do direito aparenta estar, muito mais que na Justiça ou em qualquer outro valor primordial, na batalha de egos e em rivalidades imaturas entre "clãs".
    De todo modo, já antecipando os interrogatórios familiares de fim de ano, me vejo na necessidade e na possibilidade de esclarecer algumas questões que sequer deveriam ser levantadas. Em primeiro lugar, apesar de a carreira jurídica oferecer caminhos financeiramente mais confortáveis, isso não significa que seja impossível prosperar em outras áreas profissionais, sobretudo se você por elas se interessa e se qualifica. E mesmo se este delírio de senso comum fosse verídico, e de fato só fosse possível ser bem sucedido seguindo as três grandes carreiras (Direito, Medicina e Engenharia Civil), eu francamente não estaria disposto a sacrificar quarenta anos de minha vida — ou até mais, dadas as temerosas alterações na Previdência Social — em profunda infelicidade profissional apenas por dinheiro. Não estou sendo hipócrita e dizendo que dinheiro não é importante, e sim que o dinheiro, por si só, não pauta a minha vida; vejo ele como meio, não como fim. A mim, tão importante quanto ser remunerado de forma justa é desempenhar uma atividade que me cative e para a qual eu possa verdadeiramente contribuir. Isso não significa dizer que todos devem seguir o mesmo, e sim que ninguém, absolutamente ninguém, pode impor sua própria lógica de vida a mim ou a qualquer outro alguém.
    Não sou ingênuo de acreditar que construir uma carreira na Psicologia será um mar de rosas, ou mesmo que não encontrarei frustrações e obstáculos. Contudo, estou totalmente seguro que me encontrarei neste tipo de atividade, sendo o estudo da psique humana uma verdadeira paixão desde a infância, e ainda mais agora no início da vida adulta. Mas isso já é assunto para outro texto.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O infinito textual

    Ao fim de um capítulo, digitei, letra por letra:
Conseguira a tempestade que desejava provocar. Após ela, no entanto, não houve arco-íris algum. Houve um abismo. Houve um mar de ondas, glaciais por fora, magmáticas por dentro, rebentando-se em si mesmas.
    Mandei a um amigo, que também escreve e se maravilha com as possibilidades da escrita, para que ele me ajudasse a reposicionar uma vírgula, pois estava parecendo-me um tanto dissonante. O trecho exposto acima é o definitivo, já corrigido, pois o que convém aqui não é a vírgula bastarda, mas o que se seguiu depois: encarei bem aquelas palavras e cogitei a possibilidade de elas serem inéditas. Ora, que descoberta óbvia e, ainda assim, fascinante que pude fazer em meio segundo de reflexão: mesmo a língua portuguesa, rica e farta como é, com palavras que são comuns e talvez até triviais aos seus bilhões de falantes ao longo da história, e tão cotidianamente explorável como qualquer outro idioma vivo, é — vejam vocês — em grande parte inexplorada. Mesmo com seus incessantes encadeamentos de letras, fonemas, sílabas, palavras, períodos e orações, respectivamente; mesmo com um fluxo tão grande de associações que se dão a todo instante, por séculos, em exaustiva repetição; mesmo apesar disto tudo, ainda possui incontáveis possibilidades nunca antes testadas. Uma verdadeira Biblioteca de Babel à nossa espera, aguardando, latente, para ser escrita.
    Os matemáticos mais assíduos certamente irão atentar à minha ingenuidade, dizendo que mesmo as mais improváveis combinações de palavras já foram antes tentadas, e lhes dou razão; entretanto, as possibilidades são tão grandes, tão avassaladoras, tão inimagináveis, que mesmo estas repetições inusitadas não são páreas para a imensidão inexplorada. É como se julgássemos ter desmatado toda uma floresta e eu descobrisse, de supetão, que diariamente abro novos caminhos nesta selva virgem e inexaurível que é a linguagem. Ainda que muitos tenham aberto seus próprios caminhos nesta infinitude simbólica, digo com certa dose de certeza que fui o primeiro a abrir aquele exato caminho da citação acima trazida, e com uma dose ainda maior e mais segura de certeza de que este próprio texto, que pelo leitor é lido, é mais um caminho único, nunca antes explorado.
    Pergunto-me, não pela primeira vez (embora só agora eu tenha efetivamente ligado os pontos e resolvido me manifestar ao mundo, à eternidade das ideias cristalizadas chamada escrita), se o mesmo não ocorre com muitas ideias. Porque, vejam: mesmo sendo praticamente nulas as chances de alguém ter, algum dia, escrito um texto exatamente idêntico a este em termos de forma, não é tão improvável que já tenham escrito algo de conteúdo semelhante. Mas e se existirem pensamentos (ou, se quiser, conteúdos) tão específicos, tão particulares de cada experiência humana e momento histórico, que nunca foram antes pensados, e provavelmente nunca serão novamente formulados em termos equivalentes? Serão estas ideias únicas apagadas pelas falsas aparências da insignificância? Pela infeliz verdade do desinteresse alheio por nossos próprios mundos internos, detalhistas e profusos?
    Realmente me entristece imaginar o mar de caminhos desperdiçados pelo esquecimento, pelo "talvez algum dia eu conte a alguém", pelo "pensando bem, ninguém iria se importar". Rogo para que, caso encontrem caminhos esquisitos e inabitados nesta loucura chamada pensar, que se aventurem também pela relva da linguagem — por mais piegas que soem estes meus votos, por mais unânime que pareça (e, de fato, seja) a repulsa e a apatia dos medíocres frente ao que lhes é estranho, e por mais fúteis que vossas próprias peculiaridades vos aparentem ser.