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sábado, 9 de setembro de 2017

Rejeição


    Por que rejeição dói tanto?
    Por que é que as rejeições do passado insistem em se projetar constante e inconscientemente no presente, sepultando muitos futuros possíveis em nome do medo? Por que é que ela se transveste de culpa, de ansiedade, de ódio, de preguiça, de desinteresse, e até mesmo de procrastinação de maneira tão convincente que nós mesmos dificilmente somos capazes de enxergar que, na verdade, estamos apavorados pela mera possibilidade de sermos rejeitados novamente?
    Nos culpamos por coisas que nunca estiveram ao nosso controle.
    Deixamos que a ansiedade nos faça perder a cabeça por problemas que não existem.
    Canalizamos nosso ódio a um inimigo construído e descontamos nele todas as nossas cóleras que seriam, na verdade, contra os que amamos e contra nós mesmos.
    Temos preguiça porque o desamparo prévio nos sequestra qualquer motivação.
    Somos desinteressados como que por vingança, ou, ainda mais provavelmente, por receio de nos machucar novamente. Talvez nos fechemos tanto às pessoas justamente por pressupor, em algum lugar de nós, que elas também estarão fechadas a nós.
    E procrastinamos tanto porque, como é de conhecimento geral, é mais fácil deixar para o amanhã as coisas que não queremos enfrentar hoje; um amanhã eterno que será sempre a fuga daqueles que não conseguem fugir de si mesmos.
    Eu não sei. Parece um quadro pessimista. Mas peço que o leitor que tenha se identificado com esse texto, e que, justamente por isso, tomou-o quase como uma adaga gelada enfincada na espinha, não se desanime. Pelo contrário: só o fato de conseguirmos visualizar o que diabos está acontecendo dentro de nós já garante que estamos no caminho.
    Acho que o próximo passo é parar de lutar contra e, em vez disso, tentar aceitar a nossa condição falha — e, portanto, humana — de quem tem feridas e está disposto a permitir gentilmente que elas se cicatrizem. Elas irão se cicatrizar porque esse é o rumo natural das coisas; não porque temos de fazê-las desparecer, e muito menos para satisfazer expectativas que colocamos a nós mesmos sob tanta pressão. Sem pressa, sem afobação. Se permita sofrer, e, então, se permita ser. Eu vou tentar fazer isso; aviso quando der certo.


Este texto pertence ao livro Calma Tormenta, que se encontra atualmente em construção.