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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Contínuo adulto


    Numa revista sobre Lacan, encontrei uma série de insights sobre a escrita:

“Naturalmente, a literatura não é uma graça; é o corpo dos projetos e das decisões que levam um homem a se realizar (isto é, de certo modo, a esse essencializar) somente na palavra: é escritor aquele que quer ser.”
(Roland Barthes)
“Escrever é entregar-se ao fascínio da ausência de tempo. Neste ponto, estamos abordando, sem dúvida, a essência da solidão.”
(Maurice Blanchot)
“Ao comparar o ato de escrever à Psicanálise, estou implicitamente afirmando que para um indivíduo encontrar sua voz própria como escritor, em determinados aspectos, é como o caprichoso processo de se tornar adulto.”
(Alfred Alvarez)

    Algo na riqueza dessas palavras me deu uma certa revigorada na paixão pela escrita. É que, para variar, nos últimos dias estive numa daquelas recaídas nas quais não me sinto minimamente forte para escrever. Antes eu era ingênuo a ponto de achar que essas recaídas logo sumiriam, mas estou começando a acreditar, agora, que viver é isso mesmo: lutar, entre recaídas, para aceitar e entender a si mesmo. Mas é muito difícil, porque o nosso primeiro instinto diante das recaídas é entrar nesse ciclo vicioso de culpa, frustração e fuga. Pelo menos é o que faço na maior parte do tempo.
    Falo sobre a escrita, mas isso vale também para outras atividades básicas, como estudar. Não consigo estudar porque procrastino, e procrastino porque não consigo estudar. No fundo, o que gera essa minha fuga e é por ela gerada é o clássico sentimento de insuficiência, velho amigo de todos nós. E ele vem de diversas formas, entre elas a campeã: a preguiça. Tenho preguiça porque no fundo não me sinto capaz.
    Mas quando me ponho a fazer tal ato, e percebo então que isso tudo é bobeira, estratégias involuntárias de autossabotagem, e me vejo efetivando aquilo que eu precisava realizar, me vem uma ansiedade, que não deixa de ser uma outra carapuça que a insuficiência veste. E na maior parte das vezes não vejo isso acontecendo; apenas acontece.
    Hoje, enquanto caminhava na chuva com um guarda-chuva semiquebrado e pensava nas minhas questões, cheguei a uma frase que me surpreendeu, tamanha é a sua veracidade e beleza. Sinto que precisamos sempre nos reconquistar, pois as nossas neuroses e paranoias não cansam de nos furtar — da realidade, das pessoas que amamos e sobretudo de nós mesmos. Preciso me reconquistar, continuamente. Esse movimento não tem fim.
    Ser verdadeiramente adulto — no sentido de olhar para a própria vida como se ela fosse inteiramente sua, o que significa, em última instância, não sentir a necessidade de prestar contas a ninguém — não é algo que se adquire uma vez “e pronto”, mas algo que precisamos sempre estar praticando. E escrever é isso: é vestir essa toga de juiz da própria verdade, de dono da própria palavra, e expressar sua própria sinceridade com a tranquilidade e firmeza de quem não deve nada a ninguém. Esqueçam as aulas de redação: não dá para escrever de verdade se ainda tiver na boca e no coração as mordaças do medo e da insegurança de si. É como eu sempre digo, e como sempre preciso reafirmar a mim mesmo: escrever é um ato de coragem.
    Hoje me ensinei uma grande lição, que talvez a algumas pessoas pareça óbvia, mas que é muito difícil de assimilar por completo: a vida é um processo contínuo. Nunca estamos livres do dever de amadurecer. Entregar-se às próprias feridas não é o caminho. Somos grandes, se nos permitirmos sê-lo. É só ter a coragem de encarar a própria dor, aceitá-la e superá-la — um pouco por dia.
    Há quem se incomode quando os meus textos terminam com um tom de autoajuda. Consigo entender essas pessoas: verbos em primeira pessoa, no plural, com conteúdo altamente motivacional, decerto parecem ser, a um primeiro momento, a fórmula gramatical da autoajuda. Mas se você tem uma dignidade estética tão frágil ao ponto de ofuscar o conteúdo que quero dizer, apenas pela forma, meu sincero foda-se. Esta é outra coisa que (re)descobri hoje: o que eu quero com a escrita é justamente nomear as coisas mais belas e verdadeiras do nosso cotidiano, que na maior parte das vezes passam despercebidas, e, com isso, causar nas pessoas o que estas coisas causam em mim. Se eu conseguir fazer isso, estarei mais do que realizado. Esta é uma das formas de me reconquistar diariamente.


Este texto pertence ao livro Calma Tormenta, que se encontra atualmente em construção.